St-Exupéry Vida

Os textos referentes à biografia e a obra de ST EX foram traduzidos e adaptados do conteúdo do site oficial traduzidos do site oficial sobre o autor: www.antoinedesaintexupery.com por Mônica Cristina Corrêa, com revisão de Cláudio Dutra.
As fotos pertencem igualmente ao acervo da Succession Saint Exupéry.

Louis de Bonnevie (1900-1927)

Louis nasceu no mesmo ano que Antoine e ambos foram internos no Saint-Jean em Fribourg, onde se tornaram verdadeiros amigos. Antoine admirava a inteligência de Louis, seu bom coração e seu senso do dever. Ele o chama afetuosamente de Bonvie.
Os filhos do conde e condessa de Bonnevie de Poignat eram os vizinhos de Lyon e os companheiros de brincadeiras dos filhos Saint-Exupéry. A filha mais velha, Régine, dava-se muito bem com Simone.

No começo, o caráter extrovertido de Antoine se opunha ao reservado Louis. Mas uma vez matriculados no internato Saint-Jean de Fribourg, Antoine e seu irmão François encontram os vizinhos de Lyon Louis e seu irmão caçula, René; então se conhecem melhor.
“Num dia de passeio, Antoine torceu o pé. Louis o ajudou com tamanha solicitude que as brigas foram esquecidas e uma amizade duradoura se estabeleceu”.

Louis e Antoine têm longas discussões literárias e filosóficas. Enquanto Antoine se preparava para os exames da escola Naval, em Paris, Louis estudava matemática em Lyon. Eles se escreviam, mas Antoine esperava às vezes muito tempo por uma resposta a suas cartas. Em 1920, Louis passa na Estação Central e arranja moradia na pensão dos Francs-Bourgeaois, Rua Saint-Antoine, em Paris. Sai frequentemente com Antoine que lhe lê seus primeiros ensaios literários.

Formado em Engenharia de Artes e Manufaturas, Louis de Bonnevie faz a Escola de Aplicação de Artilharia de Fontainebleau. Em 1926, é designado ao Marrocos, onde morre de tifo, em 10 de maio de 1927.

Charles Sallès

Originário de Lyon, Charles faz amizade com Antoine no internato Saint-Jean em Fribourg. Antoine gosta de sua discrição e sua euforia, sempre pronto a uma travessura.

Eles se encontram em Saint-Maurice, onde a mãe de Saint-Exupéry o recebe como filho, e em Paris, onde Charles faz HEC (Escola de Altos Estudos Comerciais). Antoine lhe lê seus ensaios literários; eles passam longos momentos conversando sobre tudo e se escrevem com frequência. Charles compra um automóvel 5 CV e ambos visitam as pequenas localidades da região Creuse, Cher e Allier, onde Antoine vai como representante dos caminhões Saurer. À noite, eles passam nos bailes, de vilarejo em vilarejo. Charles se instala no Mas de Panisse, onde explora suas terras. Recebe visitas de Anotine acompanhado de Consuelo, Léon Werth ou Henry de Ségonge. Conhecendo sua admiração pela música de Debussy, Antoine lhe oferece uma gravação de Péleas e Mélisande. Eles se reveem em Tarascon em 1940, vão a Agay e jantam em Manosque, na companhia de Jean Giono e de Marcel Pagnol. Antoine lhe dedica um exemplar de Terra dos homens: “Para Charles Sallès, com uma amizade que é uma das mais sólidas, das mais antigas e das mais preciosas que tenho na Terra”.

Henry de Ségogne (1901-1979)

Antoine e Henry se encontram em 1918, no colégio Saint-Louis, em Paris, onde desde os primeiros dias de aula, ele toma sua defesa numa briga de colegiais. Antoine o chama de Eusebio.

Companheiros de muitas escapadas noturnas, vão ao teatro e ao concerto, às vezes em bando, com Bertrand de Saussine, Charles Sallès, Louis de Bonnevie. Em 1920, Antoine e Henry são figurantes na Quo Vadis, ópera de Jean Nouguès apresentada no teatro do Champs-Elysées. São ambos reprovados no exame de admissão da escola Naval.

Henry de Ségonge é apaixonado por alpinismo e faz o serviço militar num batalhão de caçadores alpinos, participando de várias escaladas, entre as quais a primeira expedição francesa para o Himalaia, em 1936. Com sua mulher, Michelle Azemar, e alguns amigos, ele vem encorajar Antoine no aeroporto de Bourget, quando este estava prestes a decolar para o raid Paris-Saigon em dezembro de 1935. Henry de Ségogne fez uma carreira de alto funcionário e se consagrou à proteção do patrimônio e da paisagem franceses. Em março de 1939, Antoine batiza sua filha Anne Marie France.

Marc Sabran

Antoine de Saint-Exupéry o conheceu no colégio Saint-Jean em Fribourg. Era um jovem de grande sensibilidade que gostava de música e de literatura.

As conversas com ele eram ricas e Marc reconfortava as ambições literárias de Antoine, que lhe lê seu primeiro texto, O aviador. Eles se encontram em 1921 no Marrocos. Oficial de carreira, Marc Sabranesteve num posto em Rabat, depois em Casablanca. Antoine efetuava o serviço militar no 37º regimento de aviação nos arredores de Casablanca e foi a Rabat para passar os exames do concurso de aluno-oficial da reserva (E.O.R.). Marc Sabran lhe apresenta PierrerPriou, alto comissário das relações indígenas do Marrocos, com quem eles passam noites inteiras conversando. Tocam música, Sabran interpreta Debussy e Ravel ao piano; giram pelos bares e jogam cartas. Com o brevê de aviação militar no bolso, Antoine volta à França para prosseguir o serviço militar. Marc Sabran morre em Tanger em 1928.

Bertrand de Saussine (1900-1940)

Bertrand de Saussine Du Pont de Gault faz parte do bando de amigos do colégio Saint-Louis em Paris, que se prepara para a Escola Naval. Ele convida Antoine de Saint-Exupéry no suntuoso hotel particular de seus pais, rua Saint-Guillaume, no bairro 7. Ele o leva à casa dos Vilmorin, vizinhos que moram na rua Chaise. Bertrand corteja Louise de Vilmorin, mas é de Antoine que ela fica noiva, para grande surpresa de todos. No entanto, é junto a Renée, irmã de Bertrand, que Antoine busca consolo quando Louise rompe o noivado.

Bertrand de Saussine passa no concurso para a Naval e se torna oficial da Marinha. Com a declaração de guerra, ele é lugar-tenente do corsário submarino Poncelet desde 1938. Em 5 de novembro de 1940, o submersível sofre um bombardeio aliado no porto de Dacar. Depois do fracasso do ataque de Dacar, Bertrand é nomeado comandante da defesa do Porto Gentil no Gabão. É encarregado de parar o comboio de três navios de carga transportando tropas escoltadas pelo aviso HMS MILFORD. Em 7 de novembro de 1940, ele se recusa render-se aos navios de guerra ingleses, ordena a evacuação da tripulação e escolhe afundar com seu submarino, fiel à divisa de seus ancestrais: “Melhor morrer que fracassar”.

Bernard Lamotte (1903-1983)

Bernard Lamotte fez o curso de Belas-Artes, onde encontrou Antoine de Saint-Exupéry em 1920. O jovem artista visita Antoine em seu pequeno quarto acoplado ao apartamento da sua prima Yvonne de Lestrange, à rua Malaquais, para pintar de suas janelas o Sena e o Louvre. Faz também croquis de Antoine, que fica escrevendo na cama, enfiado num roupão.

De volta da Argentina, Antoine de Saint-Exupéry reencontra Bernard Lamotte para as viradas noturnas em Paris nos anos loucos. Bernard Lamotte se lembra de Saint-Exupéry dirigindo seu Bugatti sem receio dos excessos de velocidade: “Eu entendi aquele dia o que era a aviação”.
Em 1935, Bernard Lamotte deixa a França para estabelecer-se em Nova York, onde a Galeria Wildenstein lhe organiza sua primeira exposição pessoal em 1936. Depois, passa a expor regularmente nas melhores galerias daquela cidade. Casa-se com Lilyan White Kent, pintora e escultora, viúva de Sidney R. Kent, presidente da Century Fox. Ele conta entre seus amigos atores de cinema como Charlie Chaplin, Greta Garbo e Marlene Dietrich. Seu ateliê é instalado na 52ª. Avenida Leste, em cima do restaurante La Grenouille, frequentado pela boemia artística.

Quando de sua primeira estada em Nova York, m 1938, Saint-Exupéry visita Bernard Lamotte. Em janeiro de 1941, assim que desembarcou na cidade, ele o surpreende em seu ateliê, acompanhado de Jean Renoir, que encontrara a bordo do Siboney. Saint-Exupéry se torna um frequentador das festas organizadas no ateliê, para a glória do qual compõe odes. Bernard Lamotte acompanha Antoine de Saint-Exupéry – que não fala uma palavra de inglês –, especialmente para a compra de vários gravadores e até de um gravador de discos, que Antoine usava para registrar histórias. Lamote passava noites em claro a escutar as páginas que Saint-Exupéry acabava de redigir.

Em 1942, Bernard Lamotte realiza uma série de ilustrações para a versão americana de Flightto Arras, editada por Reynald e Hichtcock. Os desenhos em formato grande são expostos nas vitrines de livrarias nova-iorquinas quando o livro é lançado. Para agradecer, Antoine de Saint-Exupéry escreve duas páginas em que lhe faz homenagem e se reporta ao pequeno salgueiro que este plantou no terraço de seu ateliê, à imagem do Pequeno Príncipe que cuida de seu planeta e de sua rosa com tanto amor. Saint-Exupéry pensará, aliás, em Lamotte, num primeiro momento, para ilustrar o Pequeno Príncipe, antes de finalmente decidir desenhar ele mesmo.

Depois da guerra, Bernard Lamotte realiza pinturas murais para a Casa Branca; entre outros, desenha capas de revistas, concebe cenários de espetáculos. Morre em Nova York em 1983.

Henri Guillaumet (1902-1940)

Henri Guillaumet, piloto mítico da Aéropostale, abriu vias aéreas nos Andes, no Atlântico sul, depois no Atlântico norte. Foi amigo íntimo de Antoine de Saint-Exupéry, que lhe dedicou o livro Terra dos homens.

Recomendado por Jean Mermoz com o qual fez seu serviço militar, Guillaumet foi contratado pela Latécoère em 1925. Ficou encarregado de iniciar Saint-Exupéry, novo recrutado, nas dificuldades da linha Toulouse-Barcelona-Alicante em 1926. Uma amizade duradoura ligaria desde então esses dois homens, quando, três anos mais tarde, Henri Guillaumet se casou com Noëlle em Buenos Aires, Antoine foi um dos padrinhos.
Em 13 de junho de 1930, quando atravessava os Andes pela Aéropostale, Guillaumet foi surpreendido por uma tempestade de neve e seu avião caiu, capotando perto de Laguna Diamante, situada a 3250 m de altitude. Em pleno inverno austral, o aviador andou cinco dias com a esperança de que encontrassem seu corpo, sem o qual sua mulher não poderia obter o seguro de vida antes de quatro anos. Quando Antoine foi resgatá-lo, Henri lhe diz a frase transcrita em Terra dos homens:
“O que eu fiz, juro, bicho nenhum jamais faria”.

Em 14 e 15 de julho de 1939, Saint-Exupéry estava ao seu lado quando recebeu a Fita Azul pela primeira travessia sem escalas do Atlântico Norte, a bordo do Lieutenant de Vaisseau Paris. Verdadeiro exemplo para a profissão, Henri Guillaumet foi abatido por equívoco junto com Marcel Reine, sobre o Mediterrâneo, em 27 de novembro de 1940.

Jean Mermoz (1901-1936)

Herói do ar, Jean Mermoz realiza várias explorações que lhe conferem um grande prestígio. Contratado em 1924 pela companhia Latécoère, ele assegura a ligação postal para a África e depois a América do Sul. Jean Mermoz ficou prisioneiro dos mouros, quando caiu no deserto marroquino em 1926, e foi liberado mediante pagamento de resgate.

Em 14 e 15 de julho de 1929, ele é o primeiro piloto a atravessar os Andes para ligar Buenos Aires, na Argentina, a Santiago do Chile. E em 12 de maio de 1930, realiza a primeira ligação aeropostal entre a França e a América do Sul a bordo do Comte de laVaux.

Nos anos 1930, Mermoz adere ao movimento nacionalista cristão Cruz de fogo. Durante esse período, ensina as bases da aeronáutica aos jovens desfavorecidos. Depois da dissolução da Cruz de Fogo pela Frente Popular, em 1936, torna-se vice-presidente do Partido Social Francês (PSF). Discute frequentemente com Antoine de Saint-Exupéry a respeito de suas opiniões políticas, mas ambos conseguem preservar a amizade apesar das divergências. Mermoz sempre está presente quando Saint-Exupéry precisa dele, sem jamais hesitar em lhe emprestar dinheiro.

Em 7 de dezembro de 1936, ele desaparece com sua tripulação a bordo do Laté 300 CroixduSud, depois de ter lançado uma última mensagem por rádio: “Cortamos motor traseiro direito”. Para conjurar a sorte e recusar um silêncio mais terrível que a morte, Saint-Exupéry lhe consagra vários artigos nos jornais L’Intransigeant e Marianne.

Didier Daurat

Homem lendário, Didier Daurat encarna o espírito do correio e da companhia Latécoère. Como chefe da exploração, contrata, em outubro de 1926, Antoine de Saint-Exupéry, que se inspira nele para construir várias personagens literários.

Piloto de caça durante a Grande Guerra, Didier Daurat é o único sobrevivente de sua formação quando da segunda batalha do Marne, em julho de 1918. No fim da guerra, é contratado como piloto por Pierre-Georges Latécoère, que o momeia chefe da exploração da Companhia Espanha-Marrocos-Argélia (CEMA). Ele tem o encargo de recrutar os pilotos, uns sessenta, no meio dos anos 1920, e garantir o bom funcionamento do transporte do correio de Toulouse até a África. Recrutou Jean Mermoz, Henri Guillaumet e Antoine de Saint-Exupéry.

Quando do escândalo político-financeiro da Aéropostale, Daurat é acusado de ter violado o sigilo de correspondência abrindo os envelopes confiados ao serviço pelo qual era responsável. Foi demitido em 1932 pela nova direção encarregada da liquidação judicial da companhia. Brilhantemente defendido por Jean Mermoz, Henri Guillaumet e Antoine de Saint-Exupéry, entre outros, é provisoriamente reintegrado a um posto de menos importância antes de ser colocado à disposição.

Em 1925, funda a companhia Air Bleu, que garante o correio aéreo na França metropolitana. Depois da guerra, torna-se chefe de exploração da Air France em Orly, posto que ocupará até aposentar-se em 1953. Morre em Toulouse em 1969 e pede que seja enterrado na antiga base da Aéropostale, no aeródromo de Toulouse-Montaudran.

Jean Escot

Jean Escot conhece Antoine de Saint-Exupéry durante seu serviço militar em Estrasbourgo. Eles se reencontram na escola de Avord, onde fazem os cursos de alunos oficiais da reserve (E.O.R.).

Ali conhecem Larrouy, um noviço dominicano, que os impressionou com experiências de hipnose. Ele organizava sessões em que adormecia um colega, o fazia rir sob seu comando, ordenava gestos a distância…. Todos fizeram a experiência! Antoine tentou e escolheu como cobaia seu inseparável camarada Jean, mas sem sucesso. D’Avord, Jean Escot e Antoine de Saint-Exupéry são mandados a Versalhes e obtêm a autorização de voar em Villacoublay. De manhã, Antoine arranca Jean da cama para ir a Villa de moto, antes do início das aulas em Versalhes. No fim do estágio, Saint-Exupéry é designado para o Bourget e Escot para o Lyon-Bron.

Eles se reencontram por acaso em Paris, em 1924, e Antoine convence Jean a procurá-lo em seu hotel, o Titania, na avenida Ornano. Cinema, teatro, concertos, bares e restaurantes, durante toda a noite: os dois amigos fazem a turnê dos grandes duques. De manhã, Jean é encarregado de acordar Antoine e é às vezes obrigado a aspergir-lhe água. Aos domingos, eles iam a Orly, no centro de treinamento dos pilotos civis mobilizáveis, para voar antes de Antoine increver-se como piloto interino na Companhia Aérea Francesa (C.A.F) do Bourget. Durante dois anos, Jean foi o confidente de Antoine, que lhe comunica suas ambições literárias. Uma noite, Antoine lhe lê sua novela O Aviador, antes de enviá-la a Jean Prévost.

Finalmente, Jean Escot renuncia à aviação e faz uma carreira de empresário comercial. Reviu Antoine de Saint-Exupéry em algumas oportunidades; visitou-o em seu apartamento da Praça Vauban e, às vezes, eles se correspondiam. Seu último encontro data de agosto de 1940, na estação de Marselha Saint-Charles. Jean ia a Castrer, onde ficava seu regimento. Antoine o acompanhou e passou vários dias com ele antes de deixar a França, rumo aos Estados Unidos.

Charles e Anne Morrow Lindbergh

O encontro entre essas duas celebridades da aviação, Charles Lindbergh, famoso por suas façanhas de piloto, e Antoine de Saint-Exupéry, conhecido por ter dado uma expressão literária excepcional a essa aventura do início do século XX, aconteceu em 1939, graças a Anne Morrow Lindbergh.

Filha caçula de DwigntMorrow, embaixador dos Estados Unidos no México, Anne Spencer Morrow (1906-2001) casou-se em 1929 com Charles Lindbergh (1902-1974). Ele, por sua vez, era filho de imigrantes suecos e se tornou célebre depois que voou de Nova York para Paris a bordo de seu avião Spiritof Saint Louis em maio de 1927. Sua chegada ao aeroporto de Bourget teve uma repercussão midiática internacional e fez a “águia solitária” entrar para a lenda. Por conta dessa façanha, Lindebergh foi eleito interlocutor sobre todas as questões aeronavais. Nessa época, Antoine de Saint-Exupéry era piloto na linha Toulouse-Casablanca-Dacar, criada por Pierre-Georges Latécoère.

Anne MorrowLindberg aprendeu a pilotar com o marido e se tornou uma pioneira da aviação na América. Em 1930, foi a primeira mulher americana a obter brevê de piloto de planador. O casal teve seis filhos, mas a vida da família foi marcada pelo sequestro do mais velho, Charles, em 1932, encontrado morto alguns dias depois, apesar do pagamento de resgate. Em consequência desse evento doloroso, os Lindbergh se exilaram na Inglaterra em 1925. Anne Morrow Lindbergh escreveu dois livros nos quais conta seus voos com o marido: Norhttoorient em 1935 e Listen! The Wind, em 1938. A Embaixada Americada mandou Charles Lindbergh à Alemanha para efetuar um relatório sobre a Luftwaffe, a força aérea alemã sob o Terceiro Reich. Sua expertise o leva a qualificar de “invencível” a aviação alemã e a considerar Adolf Hitler como um “grande homem”, que ele julga menos perigoso do que Stalin.

Em 1939, foi pedido a Saint-Exupéry um prefácio à obra de Anne Morrow Lindbergh, Listen! The Wind. Entusiasmado com leitura das provas da tradução francesa, “Le Vent se lève”, ele decide redigir um texto muito mais amplo do que o previsto. Em julho, Saint-Exupéry encontrava-se em Nova York para participar das manifestações em torno do lançamento de seu livro Terra dos homens (Wind, Sandand Stars) e recebeu um telefonema de Anne Morrow Lindbergh convindando-o a passar o fim de semana em sua propriedade em LongIsland, onde ficou por dois dias.

Mesmo sem dominar bem o francês, Anne Morrow Lindbergh serviu de intérprete entre os dois homens. A conversa era sobre o sentido da existência e as sensações do piloto que descobre o mundo sob o nascer de um novo dia. E também sobre a situação internacional, que interpretam de modos diferentes: Charles Lindbergh, seduzido por Hitler, é isolacionista, enquanto Antoine de Saint-Exupéry milita por um engajamento dos Estados Unidos ao lado dos países europeus ameaçados pelo nazismo.

Anne Morrow Lindbergh conta os momentos privilegiados passados com Antoine de Saint-Exupéry em seu Diário e, em 1990, escreve o prefácio de uma edição americana de WartimeWritings, 1939-1944 (Escritos de guerra).

Jean-Marie Conty (1904)

Filho de um diplomanta de alto nível, Jean-Marie Conty entrou na Aéropostale em 1927. Encontrou Antoine de Saint-Exupéry (contratado um ano antes) no Roi de laBière (Rei da Cerveja), um Café de Casablanca frequentado pelos pilotos. Torna-se seu parceiro de jogo de xadrez e no fim da terceria partida, desejoso de conhecer sua opinião, o autor aproveita para ler-lhe longas passagens de seu manuscrito Correio sul.

De volta à França, eles se vêem de tempos em tempos. Jean-Marie ficara encarregado de missão na Air France para o Irã, a China e a União Soviética. Faz Antoine encontrar as velhas governantas francesas, as quais descreverá numa reportagem sobre Moscou publicada no Paris Soir em 1935. Em novembro do mesmo ano, Conty convenceu Saint-Exupéry a fazer com ele uma turnê de conferências para apresentar a Air France pelo Mediterrâneo. Partindo de Casablanca, fizeram várias escalas até o Cairo, onde visitaram um túmulo que inspirou a Saint-Exupéry o problema do Faraó (problema de matemática).

Em 1939, Jean-Marie Conty coordena a publicação do 8o. número da revista Le document, consagrada aos pilotos de teste. Pede um texto de introdução a Antoine de Saint-Exupéry, que fora piloto de teste e que quase se afogou, em 1933, em Saint-Rphaêl, testando um Laté 293. Em sua introdução a esse número especial, Saint-Exupéry critica o rigor científico e apregoa a experiência dos homens que arriscam suas vidas para ir além do que pensam os engenheiros : « o avião não é apenas uma coleção de parâmetros, mas um organismo que se ausculta ».

Mas esse Saint-Exupéry intuitivo podia mudar radicalmente de opinião e apregoar o rigor científico sobre um assunto de astrologia !

Jean Israël

Personagem heróico de Piloto de guerra, Jean Israël se torna o mais célebre piloto judeu francês. Antoine de Saint-Exupéry o conheceu em dezembro de 1939, quando se juntou à Esquadrilha da Foice baseada em Orconte, na região Campagne-Ardenne.

Engenheiro civil, Jean Israël era tenente aviador da reserva. Entrou na aviação militar em 1936, na Escola de Ambérieu, depois de Avord. Com a declaração de guerra em 1939, ele foi mobilizado e designado ao grupo 2/33. Saint-Exupéry chega nessa unidade e faz amizade com vários aviadores, entre os quais François Laux, o capitão Moreau, os tenentes Hochedé e Dutertre e Israël. Este dá provas de uma coragem excepcional nas missões suicidas descritas em Piloto de guerra. Esse piloto de « nariz grande bem judeu e bem vermelho », ocupa um lugar à parte no livro de Saint-Exupéry, que assim denuncia o antisemitismo.

Piloto de guerra foi publicado em Paris em novembro de 1942 pela Editora Gallimard. A imprensa colaboracionista lhe reservou uma acolhida odiosa. Primeiro censurado, o livro foi finalmente proibido pelas autoridades da Ocupação. No momento em que Piloto de guerra foi publicado, Jean Israël é feito priosioneiro no campo especial de Lübeck, na Silésia. Tendo partido em missão em 22 de maio de 1940, seu avião foi abatido e ele foi capturado pelos alemães. Foi ali que soube da tempestade suscitada na França pela evocação de sua coragem em Piloto de guerra ; ele introduziu clandestinamente um exemplar do livro no campo. Em 1944, entra em seu quinto ano de cativeiro no campo de prisioneiros e recebe a notícia do desaparecimento de Antoine de Saint-Exupéry.

Jean Prévost (1901-1944)

Secretário de redação da revista literária Navire d’argent, Jean Prévost revela Saint-Exupéry ao publicar seu primeiro texto, O aviador, em abril de 1926. «

Foi no salão literário de Yvonne de Lestrange que Jean Prévost conheceu Antoine de Saint-Exupéry. Ficou impressionado com a força e a fineza com as quais “Tonio”, como o chamava, falava de suas impressões de aviador. Ao saber que estava escrevendo, quis ler. Antoine perdera o texto que queria lhe submeter e o reescreveu de memória. Como chegou atrasado para um encontro marcado no café DeuxMagots, na Praça Saint-Germain desPrès, Antoine acabou deixando o manuscrito no Caixa, que chegou finalmente às mãos de Jean Prévost. Este último fez alguns retoques ao texto, a começar pelo título, que era « A evasão de Jacques Bernis », mudando-o para « O aviador ».

Jean Prévost recomendou o jovem autor a Gaston Gallimard e o incentivou a propor um contrato para um primeiro livro. Quando Correio sul entrou na revisão, ele corrigiu as provas e assinou uma resenha laudatória do romance publicado pela Nouvelle RevueFrançaise em 1929. Também celebrou Voo noturno com um artigo muito elogioso publicado no Gringoire em 1931. No fim dos anos 1930, bolsita nos Estados Unidos, Jean Prévost foi um dos que contribuíram para a fama de Antoine de Saint-Exupéry além-mar. No exemplar de Terra dos homens que lhe dedica, Antoine de Saint-Exupéry lhe agradece por ter sugerido esse livro. Note-se que em 1936, Jean Prévost publica ele próprio um volume intitulado A Terra é dos homens.

Jean Prévost aderiu ao Comité Nacional dos Escritores, criado por Louis Aragon e sua mulher, Elsa Triolet. Ele recebeu o grande Prêmio de Literatura da Academia Francesa em 1943. Durante a guerra, entrou na Resistência sob o nome de capitão Goderville e participou da criação do jornal clandestino As estrelas no fim de 1942. Foi morto com armas na mão em Sassenage, em Vercors, no dia 1o. de agosto, manhã seguinte do desaparecimento de Saint-Exupéry.

Jean-Gérard Fleury

Jean-Gérard Fleury nasceu na França em 1905 e faleceuo no Rio de Janeiro em 2002, onde viveu grande parte de sua vida. Jean Gérard Fleury tinha em comum com Saint-Exupéry uma grande diversidade de atividades e talentos. Ele foi advogado no tribunal de Paris, jornalista, escritor, piloto, empresário na indústria aeronáutica e trabalhou na área editorial. Conheceu Saint-Exupéry no Marrocos em 1931, por ocasião de uma reportagem sobre a Aéropostale. Publicou, em 1933, Caminho do céu, com prefácio de Joseph Kessel e, em 1939, pela editora Gallimard, A Linha- De Mermoz, Guillaumet, Saint-Exupéry e seus companheiros de epopeia. Uma grande amizade unia esses dois homens que se encontraram em Nova York em 1941, durante a Segunda Guerra, quando Jean-Gérard Fleury ali estava como correspondente da Royal Air Force e Saint-Exupéry, exilado, longe de seu grupo de reconhecimento 2/33, ao qual se juntaria novamente em 1943, na África do Norte.

André Gide (1869-1951)

Mundano e sempre em busca de novos talentos e novos discípulos, André Gide frequentava os salões literários parisienses, entre os quais o de Yvonne Lestrange, que o convidava também, para seu castelo de Chitré. Ela lhe recomendou calorosamente seu primo Antoine de Saint-Euxpéry, que escrevia.

A amizade nascente entre os dois preocupava Marie de Saint-Exupéry, que não julgava boa companhia aquele autor de má reputação. Várias vezes em suas cartas, Antoine teve de defendê-lo junto a sua mãe. André Gide adquiriu um grande prestígio como formador de opinião das novas gerações dos anos 1920, e sob sua autoridade estava o grupo de jovens da Nouvelle Revue Française, piblicada por Gaston Gallimard em 1908.

Saint-Exupéry não ignora a influência de André Gide nos meios literários, de modo que lhe submete seu primeiro manuscrito, Correio Sul. Dois anos mais tarde, de volta da Argentina, ele o faz ler seu segundo manuscrito, Voo noturno, para o qual Gide propõe um prefácio. Saint-Exupéry lhe conta a história de Henri Guillaument, cujo avião se espatifara nos Andes em pleno inverno austral; sua luta pela sobrvivência, sua marcha até um lugar habitado. Gide fica impressionado tanto pela aventura de Guillaumet quanto pela narrativa e incentiva Saint-Exupéry a escrevê-la. Será um primeiro passo para seu livro seguinte, Terra dos homens.

“Depois de seus dois primeiros romances, eu me atrevi a lhe dizer: por que não escreve alguma coisa que não seja uma narrativa contínua, mas uma espécie de… Aqui hesitei: enfim, um buquê, um ramalhete, sem dar conta dos lugares e dos tempos, o agrupamento em diversos capítulos das sensações, das emoções, das reflexões do aviador” – explica Gide, segundo Georges Pélissier.

Em agosto de 1938, Yvonne de Lestrange convida para Chitré seu primo Antoine e André Gide, que conta sua estada à amiga Elisabeht Van Rysselberghe. Em suas anotações, ela diz:

“Ele (Gide) me fala de Saint-Exupéry, que estava em Chitré, com uma grande admiração e como de um ser de inteligência extraordinária e de um espírito inventor prodigiosos… Faz também mágica com o baralho com inexplicável habilidade, que recusa-se a explicar, então se pensa que tem dupla visão”.

Atrelado à escrita de Terra dos homens, Saint-Exupéry apresenta fragmentos a André Gide, que lhe sugere mudar a ordem dos capítulos. Ele lhe dá um volume de Joseph Conrad, Miroir de la mer (O espelho do mar), a fim de lhe demonstrar que se pode fazer um bom livro com elementos díspares.

Refugiado na Tunísia em 1942, André Gide vai a Alger depois da liberação da África do Norte. Fica na casa de Anne Heurgon-Desjardins, onde cruza com outros convidaddos, como André Maurois (que voltava dos EUA), Albert Camus, Jean Amorouche, Max-Pol Fouchet e, em 1943, Antoine de Saint-Exupéry. Gide e Saint-Exupéry jogam xadrez, mas Max-Pol Fouchet surpeende Gide roubando, tentando ganhar ao menos uma partida do temível adversário.

Alguns dias antes de desaparecer, em julho de 1944, Antoine de Saint-Exupéry propôs a André Gide levá-lo para dar uma volta de avião, mas Gide, prudente, deu como pretexto uma tosse e recusou.

Léon Werth

Léon Werth

Léon Werth

O jornalista René Delange apresentou Léon Werth a Antoine de Saint-Exupéry, que acabara de receber o prêmio Femina por Voo noturno, em 1931. Uma grande amizade logo ligará esses dois homens. Saint-Exupéry, que admirou Clavel soldat (um violento libelo contra a guerra, publicado em 1919), dedicará O Pequeno Príncipe a Léon Werth, quando ele era pequeno”.

Eles jantavam juntos em Paris, ou em Saint-Amour, casa de verão dos Werth no Jura, ambos contentes de confrontar seus pontos de vista. Léon Werth, por sua vez, tem a sensação de que Tonio lhe devolveu a juventude. Suas conversas são às vezes excitantes para o espírito e alegres pelo confronto intelectual. As discussões com Léon Werth estão na origem de reflexões sobre a vocação do homem no mundo, de princípios de economia política e de considerações sobre a guerra e o desenvolvimento das sociedades. Antoine de Saint-Exupéry afirma que ele é o “fruto de uma civilização”, “o guardião de uma opinião particular e profunda”.

Na Páscoa, Antoine vai a Saint-Amour e os dois amigos almoçam em Fleurville, às margens do Saône, em companhia de alguns marinheiros. Antoine jamais esqueceria aquele momento, que transcreverá no capítulo III da Carta a um refém. Quando a guerra eclodiu, Léon Werth lançou mão de suas relações para que seu amigo fosse designado para o Centro Nacional de Pesquisa Científica e para colocá-lo ao abrigo dos combates a vir:

“Esse risco ele queria (anota Léon Werth). Quantas vezes nós repetimos que ele podia servir melhor de outro jeito do que com o exemplo de sua morte. (…) Como aos outros riscos, ele queria não apenas enfrentar, seria fácil demais, mas recolhê-lo, enriquecê-lo com sua própria substância, filtrá-lo”.

Em meados de outubro de 1940, Saint-Exupéry volta a Saint-Amour, onde Léon Werth, de origem judia e comunista, se refugiara. Ele lhe lê algumas páginas de seu manuscrito Cidadela. Léon Werth o aconselha a deixar a França e lhe confia seu manuscrito 33 dias. Nos EUA, Saint-Exupéry é encarregado de redigir o prefácio e publicá-lo, mas sem sucesso. Seu prefácio, inicialmente intitulado Carta a Léon Werth, torna-se Carta a um refém e surge de modo independente em 1943, no mesmo ano em que lhe dedica O Pequeno Príncipe.

“Esse adulto é o melhor amigo que fiz no mundo”.

Em seu refúgio no Jura, Léon Werth faz um diário que será publicado em 1946 sob o título “Deposition”. Consagra numerosas páginas a Antoine de Saint-Exupéry, que serão publicadas à parte, em 1948.

Joseph Kessel (1898-1979)

Foi no Marrocos, em 1931, que Joseph Kessel conheceu Antoine de Saint-Exupéry, que ali estava para cuidar do transporte noturno na linha Casablanca-Dacar-Port-Etienne. Kessel ouviu falar de suas explorações enquanto chefe de escala em Cabo Juby. Autor de Correio sul, Saint-Exupéry tinha se dedicado a descrever a vida dos pilotos, como Kessel outrora.

Engajado na aviação de combate em 1916, Joseph Kessel tirou disso o tema de seu romance de sucesso L’Équipage, dedicado à vida dos pilotos de guerra e publicado em 1923. Depois da guerra, ele abraçou uma carreira ao mesmo tempo de repórter e de romancista. Cobriu grandes eventos que marcaram o mundo e acompanhava os progressos da Aéropostale. Em 1926, obteve o Grande Prêmio do romance da Academia Franesa por Les Captifs.

Em dezembro de 1935, Joseph Kessel é dos que vêm encorajar Saint-Exupéry para a incursão Paris-Saigon. E quando ele é encontrado são e salvo, redige um Perfil de Saint-Exupéry no semanário Gringoire de 10 de janeiro de 1936. Naquele ano, foi criado o grande prêmio literário do Aeroclube da França; fazem ambos parte do júri. Seus caminhos se curzariam novamente em 1937, em Madri, aonde Saint-Exupéry foi enviado para cobrir a guerra da Espanha.

Tendo sido correspondente de guerra em 1939, Joseph Kessel se dá conta da vida rústica dos aviadores. Percorreu as diferentes unidades militares que se preparavam para enfrentar o inimigo e reencontrou Saint-Exupéry, que estava no grupo 2/33, em Orconte. Os dois se cruzariam de novo em 1940. Desmobilizado, Saint-Exupéry vai à França para ver os amigos antes de partir para os EUA. Em 1943, Kessel vai a Londres, onde compõe as letras do Chant des partisans, com seu sobrinho Maurice Druon. No fim do ano de 1943, ele vai para Alger, onde vê Saint-Exupéry pela última vez.

Léon-Paul Fargue (1876-1947)

“Conheci muito o caro Tonio: ele fez quase parte de minha juventude de Paris; eu quero falar da segunda, a que começa em 1924, com a aviação verdadeira. Enfim, poderei dizer com ele: naquele tempo”.

Habitué dos salões literários, Léon-Paul Fargue conhece o jovem Antoine de Saint-Exupéry na casa de Yvonne de Lestrange. Poeta e escritor, ele leva uma vida de boêmio, convivendo com a elite cultural do início do século: Paul Valéry, Valéry Larbaud, Paul Claudel, André Gide ou Maurice Ravel. Foi membro da Sociedade dos Apaches (1900-1914), grupo artístico francês composto de escritores e de músicos que dedendeu Claude Debussy para a criação de sua ópera Pelléas e Mélisande.

Os dois homens encontram-se em Androuet, “no museu de queijos”, passam as noites no hotel Lutétia, no restaurante Lipp, no apartamento de Saint-Exupéry rua Chanaleilles ou na casa de Jean Prévost:

“Eu, Léon-Paul Fargue, oficial da Academia Francesa, certifico que retive Antoine de Saint-Exupéry, comendador de tudo, até altas horas, porque quando o vejo, não consido largá-lo”.

Apesar dos 23 anos de diferença, Léon-Paul Fargue aprecia a companhia desse jovem autor que não hesita em lhe pedir conselhos. Assim, antes de partir para a reportagem na URSS em 1935, Antoine de Saint-Exupéry lhe pede uma aula de história. Léon-Paul Fargue, que conhece os exilados expulsos da Rússia pela revolução de 1917, faz com que encontre os que podem lhe falar com competência de seu país, especialmente o príncipe Alexandre Malinovski.

Cronista brilhante da vida parisiense, Léon-Paul Fargue consagra vários textos a Antoine de Saint-Exupéry.

“Saint-Exupéry tinha ideias justas e novas sobre quase tudo. Nada lhe escapava: o marxismo, a moda, a mitologia, a arte clássica, as extravagâncias, o destino, Montmartre e o folclore americano, o esnobismo e a sutileza, as piores audácias, e o gosto mais refinado, Picasso, Valéry, as corridas, os Médicis, o início do Surrealismo, os sonhos e a psicanálise, os balés russos (…)”

“Para Saint-Exupéry vivo, nada jamais foi impossível (…). Era um bom grande diabo de lealdade, de alívio e de fé que não nos consolamos de ter perdido. (…) Eu o amei muito e chorarei sempre por ele”.

André Beucler (1898-1985)

Por sugestão de Gaston Gallimard, em abril de 1929, Antoine de Saint-Exupéry visitou André Beucler e lhe solicitou um prefácio para Correio sul. Ele aceita, mas se arrependerá em seguida de ter destacado o aviador e não ter suficientemente insistido nas qualiaddes literárias do romance.

André Beucler dava seus primeiros passos na imprensa quando foi notado por Gaston Gallimard, que publicou, em 1925, seu primeiro livro La ville anonyme. Muito rapidamente, tornou-se um jornalista famoso, um autor de sucesso e um roteirista bem remunerado.

Léon-Paul Fargue e Joseph Kessel são seus companheiros de festas bem regadas nos cafés parisienses. Ele frequenta Robert Desno, Marcel Achard, Pablo Picasso, Jean Cocteau, Paul Morand, Jean Giraudoux, Emmanuel Bove, Marcel Aymé, Max Jacob… Mantém relações cordiais com Piere Lazareff, Julien Duvivier e o compositor Georfes Auric.

Saint-Exupéry foi logo adotado no grupo daqueles que passavam as noites a discutir em volta de um copo, entre os quais, alguns haviam se encontrado no salão literário de Yvonne de Lestrange. No fim da refeição, Antoine de Saint-Exupéry, André Beucler, Jean Prévost e Jean Giraudoux decidiram fazer desses almoços encontros regulares, mas a eclosão da guerra poria fim a esse hábito.

Sendo crítico de cinema, André Beucler se torna roteirista na equipe francesa que trabalha para os estúdios UFA de Berlim, o que não o impede de denunciar o perigo do crescimento do nazismo em seus artigos. Depois, ele é encarregado de missões na equipe de Jean Giraudoux, que se tornou comissário geral de informação em 1939. Ele se estabeleceu no sul da França, onde organizava uma estrutura de acolhida aos clandestinos. Em seus retratos e lembranças, dá um grande espaço aos amigos mortos, inclusive Saint-Exupéry.

Lewis Galantière (1895-1977)

Lewis Galantiére foi apresentado a Antoine de Saint-Exupéry pela editora Reynal & Hitchcock em Nova York, em 1938. Ficou encarregado de reunir em capítulos (artigos já publicados) num volume único, além de traduzir Terra dos homens, que foi publicado sob o título Wind, Sand and Stars.

Com a assinatura do contrato e os adiantamentos, Antoine de Saint-Exupéry e Lewis Galantière começam sua colaboração. Saint-Exupéry constrói seus textos, não se deixando senão em parte guiar por Lewis Galantière, que queria mais ação e menos mobilização moral. Lewis Galantière se esforça para converncê-lo a acrescentar passagens que Saint-Exupéry considera inúteis. O entendimento não é sempre dos mais cordiais e Lewis Galantière chega a afirmar que Antoine de Saint-Exupéry seria incapaz de terminar seu trabalho sozinho. No entanto, Galantière serve de intérprete a Saint-Exupéry quando de suas estadas nos Estados Unidos, como, por exemplo, sua coletiva de impresna em janeiro de 1941, na qual desmente ter sido membro do comitê de escritores do Conselho Nacional de Vichy.

No fim do ano de 1941, Lewis Galantière e Elisabeth Reynal se fazem de intermediários das Edições Reynal & Hitchcock para pedir a Saint-Exupéry um novo livro destinado a “explicar a derrota às pessoas (os americanos) que creem que a França não combateu”. Será Flight to Arras (Piloto de guerra). Saint-Exupéry se põe a trabalhar e Galantière, encarregado da tradução e ao mesmo tempo da redação, se vê afogado em variantes, correções e outras revisões, transmitidas por correio e telefone, às vezes em plena noite.

Em março de 1942, quando de um coquetel, Lewis apresenta Sylvia Hamilton a Antoine, estando assim na origem de sua ligação. Antoine expõe a Lewis suas ideias com relação à conduta da guerra (submarinos deviam transportar para o outro lado do oceano aviões desmontados) até a iniciativa para uma reconciliação entre os generais Giraud e de Gaulle, que os americanos já desejavam. Em outubro de 1942, Lewis Galantière troca os EUA por Londres e, no início de 1943, Saint-Exupéry pela Argélia.