St-Exupéry Vida

Os textos referentes à biografia e a obra de ST EX foram traduzidos e adaptados do conteúdo do site oficial traduzidos do site oficial sobre o autor: www.antoinedesaintexupery.com por Mônica Cristina Corrêa, com revisão de Cláudio Dutra.
As fotos pertencem igualmente ao acervo da Succession Saint Exupéry.

As referências literárias

As primeiras leituras de Antoine de Saint-Exupéry remontam à infância. Na hora de dormir, sua mãe contava histórias religiosas e lia contos aos filhos. Pelo seu sexto aniversário, ela ofereceu a Antoine Histoires vécues, um livro ilustrado sobre a floresta virgem mostrando uma jiboia devorando um felino. Depois, ela lhe ensinou a decifrar as letras. Por volta dos 13 anos, como era bom de latim, Antoine traduziu em segredo Júlio César a fim de saber como funcionavam as máquinas de guerra romanas.

Quando rapaz, ele lia muito, especialmente os romances de Dostoieviski. Venerava Baudelaire e decorou a obra de Leconte de Lisle, Heredia, e Marlarmé, “para minha vergonha”, diria mais tarde. Aos 19 anos, ficou entusiasmado pelo poeta simbolista Albert Samain (1858-1900), sobretudo por Le Chariot d’or e experimentou os sonetos de Henri de Regnier (1864-1936). Durante seus estudos no Fribourg, Saint-Exupéry se juntou à trupe da escola e representou Diafoirus na peça Doente imaginário, de Molière. Com o vestibular, prosseguiu os estudos em Paris e ia ao teatro, às vezes à ópera. Viu a Virgem louca de Henry Bataille (1872-1953), “uma peça extraordinariamente pungente”. No teatro do Champs Elysées, ele assistiu, com Henri de Ségone, Quo Vadis? Segundo o romance histórico de Henryck Sienkiewicz. Para ganhar um pouco de dinheiro, arranjou até um papel de figurante no Châtelet.

46_6

Os poemas

As primeiras tentativas literárias de Antoine de Saint-Exupéry datan de seus anos de colegial, no Notre-Dame de Sainte-Croix, no Mans. Divertindo-se com o jogo de rimas, compôs pequenos poemas desajeitados que demonstram sua facilidade em manipular a língua. É também uma maneira conveniente de expressar seus sentimentos às moças que encontra. Sua atividade literária diletante continuou mais intensa durante os anos de serviço militar em Strasbourg, depois em Casablanca. E foi sempre com poemas de amor que pensava impressionar sua futura noiva, Louise de Vilmorin.

Seu batismo do ar

Durante as férias de verão de 1912, ainda sob a emoção de seu batismo do ar, compôs um poema que apressou-se em mostrar ao abade Margotta, um de seus professores no Mans.

“As asas tremiam sob o sopro da noite,

O motor com seu canto acalentava a alma adormecida…”

O Écho de Troisième

Em 1913, Saint-Exupéry teve a ideia, com alguns de seus colegas, de fazer um jornal e garantiu cuidar do editorial e da página de poesia. Concebido segundo o modelo dos jornais diários da época, O Écho de Troisième publicava romances em folhetim, artigos esportivos, variedades e até receitas culinárias e pequenos anúncios consagrados principalmente à vida da escola. Depois do primeiro número, a direção desencorajou os redatores a continuar.

A odisseia de um chapéu chique

Aos 14 anos, ele teve seu primeiro sucesso literário. Para um dever de francês, redigiu uma narrativa fantástica intitulada “A odisseia de um chapéu chique”, a respeito de um chapéu que, depois de ter conhecido a glória parisiense, acabou na cabeça de um rei negro. Prêmio de melhor composição francesa do ano, esse trabalho escolar teve como nota 12 de 20: o professor deplora os muitos erros de ortografia e um estilo “às vezes pesado demais”.

O Guarda-chuva

Quando adolescente, Antoine escreveu um livreto para uma opereta, “O Guarda-chuva”, com esperança de que sua professora de piano, em Lyon, Anne-Marie Poncet, compusesse a partitura.

Balada da carteira

Uma vez, ele serviu-se de sua facilidade literária para reagir contra uma punição durante o preparatório para o concurso da Escola Naval. Antoine de Saint-Exupéry e Henri de Ségogne eram os dois alunos privilegiados que dispunham de uma carteira privativa enquanto os demais alunos do colégio Bossuet dividiam um lugar numa mesa comum. Um dia, o abade Gernevois o privou de sua carteira por causa da desordem reinante. Saint-Exupéry redigiu na lousa, em termos jocosos, uma balada que terminava com um quarteto. Henri de Ségogne copiou o poema e mostrou ao abade Genevois e Saint-Exupéry recuperou sua carteira.

“Príncipe, que por um gesto atroz

Tornou-se seu algoz

Queira, tocado por sua choradeira

Devolver-me a carteira”.

O adeus

Aos 19 anos, sob o título geral “O adeus”, Saint-Exupéry compôs cinco poesias num caderno. Na primeira página, desenhou um autorretrato e anotou dois versos em destaque de François Coppé e Henri Barbusse. Cada página de poesia é composta com cuidado e decorada com motivos feitos a nanquim.

As cartas

Os sinais de uma vocação literária nascente de Antoine de Saint-Exupéry se manifestam também em suas cartas. Desde criança, estabeleceu uma correspondência com sua mãe, depois com seus amigos.

A correspondência epistolar regular com sua mãe, a condessa Marie de Saint-Exupéry, desvela uma relação estreita entre mãe e filho. É uma correspondência sem fardo, que revela a natureza profunda de um homem fora do comum. A primeira carta data de 1910: Antoine e seu irmão François eram estudantes no colégio de jesuítas Notre-Dame de Sainte-Croix do Mans. A última teria sido escrita em julho de 1944, alguns dias antes de seu desaparecimento.

Fiel na amizade, Saint-Exupéry manteve relações com seus colegas de escola e com moças como Renée de Saussine. Suas cartas são frequentemente ilustradas com pequenos desenhos. Entre as linhas, essas correspondências permitem assistir aos grandes eventos que marcaram a primeira metade do século XX, acompanhar a história da literatura e da aviação. São linhas que dão conta da vida cotidiana: na narração de um evento anódino, aparecem às vezes descrições surpreendentes, reflexões morais profundas, perfis esboçados em algumas palavras, surpreendentes.

O aviador (1926)

No início dos anos 1920, Antoine de Saint-Exupéry parece ter pela primeira vez vontade de escrever uma obra literária no exato sentido do termo. Sob o choque com a ruptura do noivado com Louise de Vilmorin, em 1923, ele começou a redação de um texto. Sua história faz a apologia do aviador que arrisca a própria vida para atingir verdades mais fortes do que as da moral comum, burguesa. Ele a intitula “A evasão de Jacques Bernis”.

Na mesma época, numa carta à sua mãe, ele fala de um conto que poderia ser publicado pela Nouvelle Revue Française. Tratar-se-ia de Manon danseuse, primeiro texto que ele considerou suficientemente acabado para mostrar já em 1925 a alguns de seus amigos. Sua correspondência faz supor que tenha começado várias narrativas e novelas.

No salão de sua parente Yvone de Lestrange, Saint-Exupéry cruza os escritores mais ilustres e encontra Jean Prévost. Este é crítico literário na Nouvelle Revue Française, cujas principais figuras, André Gide, Gaston Gallimard e Jean Schulumberger, frequentam também o salão. Entusiasmado por suas experiências de pilotagem, Saint-Exupéry cativa Prévost contando suas aventuras nos ares. Ele lhe falou da “Evasão de Jacques Bernis”. Entrega os manuscritos a Prévost, curioso para ler. Os redatores da NRF decidem confiar o texto a uma outra revista, à qual estão ligados e da qual Jean Prévost é secretário de redação: Le Navire d’argent. A revista publica um excerto do texto em abril de 1926, com o título “O aviador”. Gaston Gallimard lê Manon danseuse e o Aviador por recomendação de Jacques Rivière, diretor da NRF. Talvez para agradar à amiga Yvonne de Lestrange, tão bem inserida naqueles meios, ele propõe ao jovem autor publicar esses textos numa antologia de quatro novelas e o incentiva a escrever outros dois. O projeto ficou sem continuidade, assim como o da revista Europe, que anunciara, entretanto, a publicação de um texto de Antoine de Saint-Exupéry.

Correio sul (1929)

André Gide leu o manuscrito de Correio sul, do qual fala em termos muito elogiosos a Jean Paulhan. O escritor sugere a Paulhan que publique as boas passagens na Nouvelle Revue Française, cuja direção ele tomara desde o falecimento de Jacques Rivière em 1925.

Em fevereiro de 1929, Gaston Gallimard propôs ao jovem autor um contrato por Correio sul que deveria fazê-lo esquecer das promessas de antes sobre Manon danseuse (que só foi publicado em 2007). Por solicitação de Gaston Gallimard, André Beucler, autor da casa que já gozava de alguma notoriedade, escreve o prefácio. Nessa introdução, trata-se unicamente da qualidade de aviador de Antoine de Saint-Exupéry e nada do valor literário da obra (o que Beucler lamentará logo depois). Antoine de Saint-Exupéry corrige as provas de seu livro em Brest, onde fazia um curso de navegação desde seu retorno de Cabo Juby.

Correio sul saiu nas livrarias em julho de 1929. Jean Prévost fez uma crítica muito elogiosa na NRF. Edmond Jaloux, na Nouvelles Littéraires, é mais reservado, destacando que a intriga amorosa é pouco consistente. Yvone de Lestrange conta a seu primo sobre o interesse suscitado por seu romance nos meios literários e a proposta de Gaston Gallimard de assinar um novo contrato para seu próximo livro.

Voo noturno (1931)

Antoine de Saint-Exupéry começou a redação de um novo livro em Buenos Aires. Nomeado chefe da exploração da filial da Aéropostale na América do sul, ele viveu na Argentina a partir de outubro de 1929. Escrevia em voo, no restaurante, nas boates, nos cafés, sobre os joelhos nos halls de hotéis das cidades aonde ia segundo as necessidades de seu posto. Quando voltou à França em fevereiro de 1931, tinha na bagagem o manuscrito de seu romance, Voo noturno.

Em Buenos Aires, ele encontrara Consuelo Suncin, com quem se casou em 22 de abril de 1931, em Nice. O casal se instalou na Côte d’Azur e Tonio retrabalhou seu manuscrito, reduzindo-o pela metade. Convidado por Yvonne de Lestrange em sua mansão naquela região, André Gide ficou entusiasmado com a leitura e lhe propôs escrever o prefácio.

Antoine de Saint-Exupéry remeteu o manuscrito de Voo noturno a seu editor em junho de 1931, antes de voltar ao Marrocos, onde teve a missão de conduzir o correio de Casablanca a Port-Etienne. Voo noturno saiu nas livrarias em outubro de 1931, aclamado pela crítica. Nos Estados-Unidos, a versão inglesa de Night Flight (publicada em 1932) interessou a Metro Glodwyn Mayer, que pretendia uma adaptação cinematográfica.

Os meios literários parisienses

Saint-Exupéry retoma seus hábitos nos meios literários parisienses. Ele acorda tarde, passa as tardes a escrever no canto de uma mesa no café Deux Magots e janta à noite no restaurante Lipp, muitas vezes em companhia de Léon-Paul Fargue ou André Beucler, com os quais termina a noite no Boeuf sur le toit. Ele lê Marx, mas diferentemente de André Gide e de André Malraux, fica circunspecto com relação aos comunistas e ao sistema político soviético. Durante aqueles anos, sempre trazia no bolso um bloco. Depois de longas discussões ou leituras, ou para não esquecer pensamentos surgidos de improviso, anotava as impressões e reflexões a desenvolver mais tarde sobre política, religião, moral, criação artística, etc.

1931-12-02_Vu_n194

Prêmio Femina e o Book of the Month Club (1931)

Selecionado para os dois principais prêmios literários franceses, Voo noturno não obtém o Goncourt (prêmio de maior prestígio na França), mas o Femina, em dezembro de 1931. A atribuição do Prêmio Femina a um autor considerado diletante em literatura e que ganha dinheiro falando de sua atividade de aviador suscita invejas e inimizades.

Estas se exprimem com violência na imprensa, que fora muito favorável quando da publicação do livro. Recriminam ao autor por seu misticismo e um estilo precioso e compassado. Acusam-no de substituir a ficção pelo testemunho e propagar ideias perigosos ao elogiar o poder autoritário do chefe num momento em que a Alemanha está se tornando nazista e o fascismo nascente encotnra partidários também na França.

Com exceção da amizade de alguns heróis do ar (Mermoz é um dos primeiros a cumprimentá-lo por seu prêmio), Antoine de Saint-Exupéry é contestado com a mesma irritação nos meiso da aviação. Lembrando-se de seus atordoamentos e erros de pilotagem, seus colegas pilotos ofuscam-se ao constatar que o autor se tornara um dos mais reputados aviadores da França, não por suas façanhas profissionais, mas levado por uma glória literária que lhe confere uma aura imerecida, segundo a opinião deles.

O público não se dá conta desses comentários venenosos. Voo noturno é vendido em mais de 150.000 exemplares e Jacques Guerlain fabrica um perfume com o nome de livro. Nos Estados Unidos, Night Flight é um Best-seller e a adaptação cinematrográfica confirma o sucesso de livraria. A tradução inglesa é eleita Book of the Month Club, a maior distinção literária além-mar.

Os artigos de imprensa (1932-1938)

Ao mesmo tempo confiante de uma vocação literária brilhante confirmada pelo prêmio Femina e desamparado pelos ataques dos quais é alvo, Antoine de Saint-Exupéry não pretende escrever um novo livro e fica atraído pelo cinema. Ele se se convence em fazer à imprensa artigos que poderiam melhorar suas finanças catastróficas. Seu primeiro artigo, “Piloto de linha”, sai em 26 de outubro de 1932, no primeiro número de Marianne, jornal criado por Gaston Gallimard. Até 1934, Saint-Exupéry escreveu sobre a aviação, contou suas aventuras na África e na América do sul, viu seus artigos publicados “no semanal da elite intelectual francesa e estrangeira”. A partir de 1935, ele publica em vários órgãos de imprensa: revista da Air France, Le Minotaure, Paris-Soir, L’intrensigeant...

Repórter na URSS

No fim de abril de 1935, o jornal Paris-Soir, dirigido por Jean Prouvost, enviou Saint-Exupéry à União Soviética. Sua estada acontece à margem da de Pierre Laval, que fora concluir com Stalin o pacto de assistência franco-soviético. Saint-Exupéry dita seus textos por telefone, logo enviados à gráfica. Através da descrição de sua travessia da Polônia de trem, cerimônias para o Dia do Trabalho ou do acidente de Maxime-Gorki, pérola da aviação soviética, seus artigos testemuhnam a situação política, econômica e social da URSS.

Desventura exclusiva

Em janeiro de 1936, Saint-Exupéry reservou ao Intrasingeant a exclusividade de seu raide aéreo Paris-Saigon. Reagrupados sob o título de “Voo interrompido, prisão de areia” os textos são anunciados na primeira página e deixam sem fôlego os leitores do jornal de grande tiragem. No fim do ano de 1936, ele consagra vários artigos ao colega Jean Mermoz, que desapareceu em 7 de dezembro a bordo do Croix du sud, publicados no La vie aérienne, Marianne, le Flambeau, L’Instransigeant.

Correspondente de guerra na Espanha

Em agosto de 1936, o jornal Intransigeant freta um avião para Barcelona, no qual Saint-Exupéry parte a fim de cobrir a guerra civil. Ele redige uma série de artigos sobre a Espanha ensanguentada, publicados de 12 a 19 de agosto de 1936. Retorna em abril de 1937, desta vez para o jornal Paris-Soir, em Madri, que resisitu ao assalto das tropas nacionalistas. Reencontra Henri Jean, enviado do jornal Canard enchainé, que organizou seu transporte no front de Carabancel. Em sua volta à França, três artigos são publicados. O de 26 de junho de 1937 é ilustrado com a fotografia Morte de um soldado republicano, de Robert Cappa, hoje símbolo da guerra de Espanha. Três outros artigos intitulados A Paz ou a Guerra surgem em outubro de 1938.

465_6

Terra dos homens (1939)

Em janeiro de 1938, Saint-Exupéry desembarcou pela primeira vez nos Estados Unidos para tentar o raid Nova-York-Terra do Fogo. Gozava de uma reputação estabelecida do outro lado do Atlântico, graças à tradução de seus livros Night Flight (Voo noturno) em 1932 e Southern Mail (Correio sul), em 1933. Além disso, a adaptação para o cinema de Night Flight com Clark Gable no papel principal foi um enorme sucesso, sempre presente nas lembranças.

Ele encontra Maximilen Becker, que se torna seu agente literário. Assina um contrato com os editores Eugene Reynal e Curtice Hitchcok depois de ter-lhes presenteado com páginas de sua escrita ilegível, fazendo crer que se tratava dos primeiros capítulos de seu próximo livro.

O raid Nova York- Tera do Fogo acabou num terrível acidente na Guatemala. De volta a Nova York para convalescença, Saint-Exupéry conheceu Lewis Galantière, que os editores americanos encarregaram de traduzir seu livro. Lewis Galantière constatou que as folhas eram fragmentos necessitando de ligação por um fio lógico. Em abril de 1938, Saint-Exupéry voltou para a França, daí uma longa correspondência com seu tradutor para a elaboração de Terra dos homens/ Wind, Sand and Stars.

Em julho e agosto de 1938, a revista americana The Atlantic publicou Crash in the Desert, narrativa de seu acidente na Líbia em 1935. Sobre o mesmo tema, seis artigos surgem no Paris-Soir sob título Aventures et Escales em novembro de 1938. Esses textos são retomados para figurar em Terra dos homens. O livro saiu nas livrarias francesas em fevereiro de 1939, editado pela Gallimard. Publicado em junho de 1939 nos EUA, Wind, Sand and Stars é eleito pelo American Booksellers Association e se torna um Best-seller. A edição americana tem um capítulo, “Os Elementos”, escrito a pedido de Galantière e dos editores americanos, que o autor não quis retomar na edição francesa. Em dezembro de 1939, ele recebeu o Grande Prêmio do romance da Academia Francesa.

Prêmio da Academia francesa e American Booksellers Association (1839)

Em Paris, Antoine de Saint-Exupéry deixa o apartamento da Praça Vauban e se instala sozinho na Rua Michel-Ange. É ali que corrige as provas de seu livro e risca o título Étoiles par grand vent, substituindo-o por Terra dos homens. Em 29 de janeiro de 1939, ele foi promovido a Oficial da Legião de Honra por suas qualidades literárias pelo Ministério da Educação Nacional. Henri Guillaumet foi seu padrinho.

O dossiê da Legião de Honra congrega suas reportagens na Rússia e na Espanha, suas numerosas missões oficiais e conferências no exterior promovendo a imagem da França. Destaca o sucesso de Voo noturno, recompensado com o Prêmio Femina, traduzido em várias línguas e cujo filme foi distribuído no mundo inteiro e serviria como “modelo para todos os filmes de aviação comercial posteriores”.

Em fevereiro de 1939, Saint-Exupéry foi para Nova York para trabalhar na versão inglesa de seus textos com Lewis Galantière. De volta à França, ele se concedeu entrevistas sobre o lançamento de Terra dos homens. Partiu em seguida para a Alemanha, a fim de estudar uma proposta de tradução de seu livro. Otto Abetz (representante da Alemanha na França), o fez visitar uma Führerschule (escola de cadetes do partido), em companhia do acadêmico Henry Bordeaux. Em 15 de março de 1939, o Exército alemão invadiu a Tchecoslováquia e Saint-Exupéry deixou rapidamente o país.

Entusiasmado com a leitura de Terra dos homens, Henry Bordeaux, sem falar a Saint-Exupéry, propõs seu livro ao Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa. O prêmio lhe foi atribuído (dotado de um cheque de 5.000 F) por sua narrativa. O evento foi festejado com um cuscuz na casa de Consuelo, em presença de Léon Werth, Léon Paul Fargue e Dominique Fernandez. Na América, Wind, Sand and Stars foi lançado em capa dura clássica pelos editores Reynal & Hitchcock e se tornou rapidamente um Best-seller. O American Booksellers Association (associação dos livreiros americanos) classifica o livro entre um dos maiores romances de aventura sobre a aviação que já foram publicados. Em julho de 1939, Saint-Exupéry voltou a Nova York para participar das manifestções ligadas ao sucesso de seu livro. Em janeiro de 1941, a associação organizou um grande banquete para a entrega do prêmio.

A guerra, o engajamento (1939-1940)

Em 3 de setembro de 1939, a França declarou guerra à Alemanha. Antoine de Saint-Exupéry foi mobilizado e designado ao Batalhão do Ar 101, em Toulouse-Francazal. Mas essa posição de retaguarda não lhe convinha. Ele multiplica as intervenções junto ao general René Davet e ao Ministro da Força Aérea Guy La Chambre, e obtém uma designação no seio do grupo de reconhecimento 2/33, baseado em Orconte, na região Champagne-Ardenne.

A pedido de Jean Giraudoux, Ministro da Informação, Saint-Exupéry redige o “O Pangermanismo e sua propaganda”, que lê na rádio em 18 de outubro de 1939. O Ministro tenta retê-lo, quer usar sua notoriedade de aviador e de escritor para enviá-lo numa missão de propaganda nos EUA. Saint-Exupéry recusa e replica aos que temem por sua vida que só pode escrever se engajar seu corpo num confronto com o perigo; que ele precisa dessa provação para nutrir sua escrita.

Chega em 2 de dezembro de 1939 à Esquadrilha da Foice em Orconte. Apesar de sua patente de capitão, Saint-Exupéry recusa-se a se instalar no castelo do Parquqe de Plessis e escolhe o acampamento numa fazenda em frente à igreja do vilarejo. O tenente Gavoile se encarrega de sua instrução como piloto de guerra. Saint-Exupéry dispõe de tempo para refletir e anota em seus blocos considerações sobre a guerra e o destino do homem. Em suas cartas a Léon Werth, desenhava um pequeno personagem de asas sobre uma nuvem. A vida na base era pontuada de diversões e várias pessoas o visitaram: o autor Fernandel, Joseph Kessel, Ramon Fernandez, Pierre Marc Orlan, Nelly de Vogüé…

Em 15 de dezembro de 1939, o Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa lhe foi concedido em Paris, por Terra dos homens. Em janeiro de 1940, ele recebeu uma ordem de mudança para Paris, onde teria obtido um posto no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica). Poderia continuar suas pesquisas e experiências na área de aviação. Tratava-se de um complô inventado por seus amigos para subtraí-lo aos perigos vindouros.

Em fevereiro de 1940, Saint-Exupéry fez um estágio de transformação no Potez 63, depois no Bloch 174. Em 29 de março, termina a primeira de suas três missões no Bloch 174. Em 31 de março e 1º de abril, executa etapa por etapa duas missões fotográficas em grande altitude, pelanemente realizadas. Em 23 de maio de 1940, ele parte em missão sobre Arras. Esse voo memorável lhe forneceria a matéria de seu próximo livro: Piloto de guerra.

Nova York, o vespeiro do exílio (1941-1943)

Em Nova York, Antoine de Saint-Exupéry reencontra seu amigo Bernard Lamotte em seu ateliê da 52ª Avenida. Sua chegada foi celebrada em 15 de janeiro de 1941 com um banquete no hotel Astor, onde Elmer Davies (futuro diretor da United States Office of War Information) lhe entregou o prêmio do Amerrican Booksellers Association (com um ano de atraso) por Wind Sand and Stars (Terra dos homens).

Saint-Exupéry não tinha intenção de ficar mais do que algumas semanas em Nova York. No entanto, as esposas de seus editores Elisabeth Reynal e Peggy Hitchcock lhe arranjam um apartamento num arranha-céu no número 240 do Central Park South. Eugene Reynal, Peggy Hichtcok e Maximilien Becker ajudam-no a organizar questões financeiras e Lewis Galantière se junta a eles para servir de intérprete.

Saint-Exuéry descobre a colônia francesa composta de aproximadamente 20.000 exilados diplomatas, artistas, cientistas, industriais, empresários instalados em Nova York e Los Angeles. Guarda distância daqueles que o difamam com calúnias extravagantes. Ele estaria comprando aviões para o governo de Vichy, seria antisemita e monarquista, etc. Quando Vichy o nomeia membro do Comitê de escritores, ele escreve sua resposta ao New York Times dizendo que não foi consultado e declina a oferta. As autoridades americanas o olham com desconfiança. De Gaulle tenta ligá-lo a sua causa, sem sucesso, o que lhe valerá o ressentimento tenaz do general.

“Saint-Exupéry não é político e prefere exercer sua influência, se é que tem uma, por meio de seus escritos” – declara Roussy de Sales, em 31 de janeiro de 1941.

Piloto de guerra (1942)

Os editores americanos de Saint-Exupéry contratam Marie Mac Bride, secretária originária de Lyon, a quem o autor dita as notas que toma à noite em bloquinhos. Depois, ele compra um dictafone e grava-se durante suas insônias. À noite, recebe a sociedade francesa em Nova York.

Saint-Exupéry vai à Califórnia no final do verão de 1941, convidado por Jean Renoir e com a esperança de fazer avançar o projeto de adaptação de Terra dos homens para o cinema.  Em Los Angeles, ele é operado da vesícula biliar. Segue-se um período de convalecença que o cola à cama por semanas. Ele trabalha em seu livro. Para distraí-lo, Annabella lhe lê contos de Andersen, René Clair lhe traz giz de cera.

Ele volta para Nova York, onde Consuelo o encontra e acaba seu livro que, não obstante, hesita em entregar aos editores. Em 7 de dezembro de 1941, a base naval americana de Pearl Harbour é bombardeada pelo Serviço Aéreo da Marinha Imperial japonesa. Ele apoia a entrada dos EUA na guerra e profere uma alocução “Mensagem aos jovens americanos” diante dos corpos de estudantes voluntários. Seus editores invocam as vantagens de publicar seu livro num momento em que o público americano, afetado pela guerra depois do ataque de Pearl Harbour, vai possivelmente lhe assegurar um considerável sucesso:

“Prefiro vender 100 exemplares de um livro do qual não me envergonhe – escreve Saint-Exupéry a Galantière – a seis milhões de exemplares de uma porcaria”.

Lançamento de Flight to Arras nos EUA

Em janeiro de 1942, os americanos descobrem Flight to Arras, graças à revista mensal The Atlantic, que publica em três fascículos o texto traduzido por Lewis Galantière. Em fevereiro, a obra é publicada simultaneamente em francês pela Maison Française, e em inglês por Reynal & Hitchcock, com ilustrações de Bernard Lamotte. O livro é um dos mais vendidos nos EUA em 1942.

“Essa narrativa e os discursos de Churchill representam a melhor resposta que as democracias encontraram até aqui ao Mein Kampf” – escreveu Edward Weeks em The Atlantic.

Publicação de Piloto de guerra na França

Piloto de guerra sai na França no final de 1942. O tenente Gerhard Heller, chefe da Propaganda Staffel, manda suprimir uma única frase: “Hitler, que desencadeou essa guerra demente…” antes de assinar a autorização de publicação. As autoridades vichystas e a entourage do general de Gaulle denunciam o livro com a mesma violência. Uns veem neste uma exortação a continuar-se a guerra contra a Alemanha. Os outros o consideram derrotista. O livro é finalmente proibido a pretexto de que exprime sentimentos filosemitas (elogio ao aviador Jean Israël). Duas edições clandestinas saem em Lyon em 1943 e em Lille, em 1944.

O Pequeno Príncipe (1943)

O editor americano, Eugène Reynal, ou sua esposa Elisabeth, sugere a Antoine de Saint-Exupéry que escreva um livro de conto para as crianças, a história de um bonequinho que ele não para de desenhar em todo lugar. Esse texto de dimensões reduzidas poderia ser publicado para as festas de Natal de 1942.

No início do verão de 1942, Antoine aluga com Consuelo uma casa em Wesport (Connecticut), antes de se intalar no casarão de Bevin House em Northport (Long Island), para fugir da agitação nova-iorquina. Ele faz aulas de inglês com a jovem estudante Adèle Bréaux. O casal recebe os Mauroiset, convida Marx Ernest para o casarão de estilo vitoriano. O escritor filósofo Denis de Rougemont lhes visita frenquentemente e e vê designado para padrinho do boxer Aníbal, que substitui o pequeno Yuki.

Saint-Exupéry se concentra na redação do Pequeno Príncipe e às ilustrações que dedicou a fazer ele mesmo. Maneja a caneta assim que cai a noite, com grande reforço de café e cigarros. Em plena noite, ele telefona a seus amigos para perguntar-lhes suas opiniões. No meio de outubro de 1942, o texto está redigido, mas o escritor pena com os desenhos. O filho do filósofo de Konnick lhe teria servido de modelo para certas atitudes e o cãozinho de Sylvia Hamilton para desenhar o famoso carneiro. Às vezes, esgotado, ele dorme sobre a escrivaninha.

O Pequeno Príncipe é finalmente publicado em 6 de abril de 1943 por Reynal e Hitchcock em inglês e em francês. Em 13 de abril de 1943, Saint-Exupéry deixa os Estados-Unidos para unir-se às Forças Francesas Livres na Argélia. Em Nova York, as críticas são elogiosas. Orson Welles começa a trabalhar no roteiro para adaptar o livro ao cinema. Mas renuncia, desencorajado pela recusa de Walt Disney em associar-se ao projeto.

A primeira edição francesa é publicada pela editora Gallimard depois da Liberação e a morte do autor (1944), em abril de 1946.  Mas de 10.000 exemplares da primeira tiragem são vendidos em 1946.

Carta a um refém (1943)

Antoine de Saint-Exupéry levou consigo para a América o manuscrito de 33 jours de seu amigo Léon Werth. Ele tenta publicá-lo e obtém o acordo da editora Brentano’s, que paga até adiantado um valor ao autor, que ficou na França. Em fevereiro de 1942, Saint-Exupéry ecreve um prefácio para o livro, mas, por razões desconhecidas, o editor americano renunciou ao projeto. Saint-Exupéry decide publicar seu texto separadamente e faz as modificações necessárias para que fique independente. Doravante, a Carta a um refém se dirige a todos os reféns que ficaram na França.

Em abril de 1942, ele foi convidado para o Canadá pelo editor Bernard Valiquette de Montreal, sócio da editora Bretano’s de Nova York. Faz conferências pelo lançamento de Piloto de guerra. Durante sua estada, é advertido de que não pode voltar aos EUA, tendo passado a fronteira sem visto de entrada. Deve esperar a regularização de seu visto (cinco semanas) para voltar a Nova York. Ele fica no hotel Windsor, e Consuelo vem a seu encontro. Vive muito penosamente esse exílio dentro de outro exílio, o de sua estada prolongada nos EUA. Além disso, fica acamado, vítma de colecistite.

Desde que os Aliados haviam desembarcado na África do Norte, em 8 de novembro de 1942, Saint-Exupéry fica obcecado pela ideia de retomar o combate. Em 29 de novembro de 1942, ele fala na rádio e publica uma carta aberta no New York Times Magazine, sob o título de An open letter to frenchmen everywhere. E pede a todos os franceses que façam calar suas divergências e se unam para combater juntos e salvar a França. Apesar do prestígio de seu autor, o apelo só suscita sarcasmos na maioria de seus compatriotas nos EUA.

Em 13 de abril de 1943, Saint-Exupéry embraca a bordo do Stiling Castle para a Argélia. Chegando ao fim do mês, integrou o grupo 2/33. Carta a um refém sai nas livrarias nova-iorquinas em junho de 1943, quando seu autor já deixou os EUA. Em fevereiro de 1944, Carta a um refém é publicado em Alger, na L’Arche n. 1, revista dirigida por Jean Amrouche por iniciativa de André Gide. O texto suscita protestos dos próximos do general de Gaulle. Na França, as edições Gallimard publicam Carta a um refém em dezembro de 1944.

CIDADELA (1948)

Tendo chegado em maio de 1943 a Alger, Antoine de Saint-Exupéry integrou o grupo 2/33. Mas em agosto de 1943, ele foi proibido de voar pelas autoridades militares americanas. Hospedado na casa de seu amigo, o doutor Georges Pelissier, ele trabalhava em seu livro de reflexões, cujas primeiras páginas começara em 1936. Aos que o interrogam sobre a data de publicação dessa obra, ele respondia, rindo: “nunca terminarei… É minha obra póstuma”.

Solicitado a intervir a seu favor do comando aliado, o general De Gaulle recusa-se a apoiá-lo ou a encontrar “um oficial que contesta sua legitimidade enquanto chefe da França livre”. Quando fala dos escritores resistentes, o general não cita o nome de Saint-Exupéry. Angustiado por sua inatividade, Saint-Exupéry tem a impressão de que a vitória dos aliados, então provável, prepare um mundo que não o satisfaz, “um mundo capaz de produzir pianos de carvalhos, mas incapaz de suscitar um pianista”.

Antoine de Saint-exupéry trabalhava no que considerava o livro de sua vida: Cidadela. Elaborara sua estrutura desde 1941, durante sua convalecença na Califórnia. Quando Nelly de Vogüé o encontrou em Alger em agosto de 1943, ele lhe pediu que lesse no campo as 500 páginas que havia escrito e lhe desse sua opinião. Eles terão numerosas discussões a respeito do livro e até a escolha do melhor tradutor inglês para esse texto meditativo e poético. Em setembro de 1943, Léon Wencelius chegou de Nova York com uma bela valise de couro contendo folhas de Cidadela que Consuelo lhe enviou conforme pedira.

Enviado a Alger pela revista Life, John Philipps, jovem fotógrafo da imprensa, procura Antoine de Saint-Exupéry cuja notoriedade junto ao público americano é imensa. Ele lhe consagra uma reportagem fotográfica e se encanta com o charme do escritor. Decide ajudá-lo a reencontrar seu lugar na aviação militar. E intervém junto a John Reagan McCarry, oficial que tem a responsabilidade da fotografia de imprensa para todo o espaço italiano e do general Ira Eaker, comandante das Forças Aéreas Aliadas no Mediterrâneo.

Em maio de 1944, Saint-Exupéry estava novamente autorizado a voar pelos americanos. Em junho de 1944, junta-se ao grupo 2/33 em Alghero (Sardenha), deixando sua valise para Georges Pélissier. Em julho de 1944, ele segue o 2/33 transferido para Borgo, na Córsega. Em 31 de julho de 1944, decola para uma missão de reconhecimento na região de Grenoble e Annecy, próxima da região de sua infância, da qual nunca voltará.

Em 1945, Georges Pélissier entrega a valise a Nelly de Vogüé. Ela combina a unidade das páginas datilografadas com os rascunhos incompletos, cobertos por uma escrita ilegível e, em 1948, a editora Gallimard publica, pela primeira vez, Cidadela. Uma edição abreviada, prefaciada e estabelecida por Michel  Quesnel é publicada em 2000.