St-Exupéry Vida

Os textos referentes à biografia e a obra de ST EX foram traduzidos e adaptados do conteúdo do site oficial traduzidos do site oficial sobre o autor: www.antoinedesaintexupery.com por Mônica Cristina Corrêa, com revisão de Cláudio Dutra.
As fotos pertencem igualmente ao acervo da Succession Saint Exupéry.

Paula Hentschel (1883-1965)

Desde a mais tenra infância, Antoine esteve imerso num universo feminino. Além da mãe e das irmãs, havia Paula Hentschel, a governanta austríaca contratada por Marie de Saint-Exupéry para cuidar de seus cinco filhos. Terna e vigilante, era considerada pelas crianças como um membro da família.

Em 1904, Paula, que a família carinhosamente chamava de “Fraulein”, acompanhava as crianças em La Mole, castelo dos avós maternos. Os pais viriam ao encontro deles. Voltando no trem do litoral em 14 de março de 1904, Jean de Saint-Exupéry, pai das crianças, morreu na estação de La Foux. Nesse dia, Paula havia ficado com as crianças aguardando o retorno de seus pais na varanda do castelo.

As crianças cresceram, Paula Hentschel deixou a família Saint-Exupéry para estabalecer-se na Baviera, no castelo Egglkofen a serviço da condessa de Montgelas. Ela ali ficou até a morte, e foi enterrada no cemitério de Gerzen, junto aos membros da família de Mongelas.

Durante suas missões perigosas de maio de 1940, acima dos territórios invadidos pelo exército alemão, Antoine de Saint-Exupéry se lembra de Paula, que cita várias vezes em Piloto de guerra:
“Remontava a memória até à infância para reencontrar o sentimento de uma proteção soberana. Não há proteção para os homens. Uma vez homem, deixam-nos partir… Mas quem pode fazer algo contra o menininho cuja mão uma Paula segura firme? Paula, usei tua sombra como um escudo…”

NOÉMIE ET MARGUERITE

Depois que Jean de Saint-Exupéry morreu em 1904, Marie de Saint-Exupéry e seus filhos foram acolhidos pela tia benfeitora Madame Tricaud e os empregados que rodeavam uma mulher de sua casta. A condessa era assistida por uma camareira, Noémie, e uma governanta, Margueritte.

Noémie, a “Naná”
Além de camareira da condessa de Tricaud, Noémie também exercia o ofício de secretária e contadora. Dedicada e autoritária, zelava pelo respeito às ínfimas manias de sua patroa, impondo a todos obediência às regras impostas. Como se mostrava afetuosa com as crianças – que a amavam –, estas obedeciam às exigências daquela a que chamavam de Naná. Simone conta:

“Ela canta bem, mas só lembra de uma canção de ninar que nos cantarola com uma vozinha rouca:
Do, do, l’enfant do…
L’enfant dormira bientôt,
Si l’enfant s’éveille,
Coupez-lui l’oreille”

[Nana, nana, criancinha
A criança vai fazer naninha,
Se a criança acordar
Sua orelha vão cortar]
Marguerite, a Moison, ou Moisi

Marguerite, dita Moison ou Moisi, é a governanta da tia Tricaud pela qual temum imenso respeito e uma grande admiração. As crianças, que seus olhos de ratinho divertem, gostam dela por sua alma pura e inocente.

Simone se lembra:
“Nada a surpreendia, tinha resposta para tudo e acolhia nossas confidências com uma compreensão que levaria à confissão o criminoso mais duro”.

Quando criança, Antoine gostava de lhe desobedecer, o que a enervava muito. Uma vez adulto, ele se divertia em assustá-la contando histórias extravagantes sobre os pilotos encalhados no deserto e capturados pelas tribos nômades da África do norte:
“São homens ávidos e cruéis. Eles tomaram, uma vez, um pequeno posto militar. Levaram o cabo, colocaram-no num caldeirão e o cozinharam.

Aquilo fazia todo mundo rir. Moisi fez um grande sinal da cruz:
– Misericórdia! Não é possível!”

Yvonne de Lestrange (1892 -1981)

Prima distante de sua mãe, Yvonne de Lestrange hospedou Antoine quando ele chegou a Paris para prestar os exames da Escola Naval. Yvonne gostava de reunir em seu salão parisiense e no seu castelo de Chitré, ou na mansão da Côte d’Azur, as personalidades mais prestigiosas. Antoine cruzou comcelebridades que lhe demonstraram indulgência, tanto que pela primeira vez vislumbrou uma carreira literária.

“Yvonne é extraordinária – escreveu Antoine numa das cartas à sua mãe –. Ela é excelente, a gente não se entedia a seu lado, ela explica as belas coisas de Paris, o que é uma felicidade. Tem ideias, interessa-se por tudo, por matemática como pelo resto – enfim, é perfeita”.

Yvonne encontrava em Antoine um parceiro divertido para seus passeios e suas idas à ópera, ao teatro e às exposições. Sabia que ele não tinha um tostão, que nem sempre matava a fome e o convidava com frequência ao restaurante. Ele lhe lia alguns poemas que ela julgou medíocres e muito sentimentais, mas o incentivou a perseverar. Ela lhe abriu horizontes intelectuais e constatou a que ponto seu ensinamento foi eficaz. O pequeno provinciano desajeitado foi logo transformado num perfeito representante da intelligentzia parisiense. Sua influência sobre o jovem homem brilhante e talentoso lhe deu sensação de poder e sucesso e ela aplicou-se em lançá-lo no mundo das letras.

Inscrito na Belas-Artes (que poderia prepará-lo, depois do fracasso na Escola Naval, para a carreira de arquiteto como desejava sua mãe), Antoine ocupava um quarto ao lado do apartamento de sua prima. De ascendência aristocrática e feita condessa de Terévise pelo casamento, Yvonne levava uma vida acima das convenções de sua classe social (o que deixava a mãe do rapaz reticente com relação à má influência da prima sobre seu filho). Sem nenhuma veleidade literária, Yvonne gostava, no entanto, dos escritores e dos homens de letras, os quais acolhia com prazer em sua casa. Seu apartamento ficava a dois passos da Nouvelle RevueFrançaise e da Editora Gallimard.

Quando retornou do Cabo Juby, Antoine ficou hospedado novamente na casa de Yvonne e lhe mostrou provas do livro Correio sul. Ela pediu a André Gide e a Léon-Paul Fargue que as lessem e dessem sugestões, o que fizeram de bom grado. Por ocasião de um jantar que reunia André Gide, Jean Prévost e Jean Paulhan, ela estabeleceu com eles uma verdadeira estratégia para que a imprensa acolhesse favoravelmente o romance.

Alguns meses depois de seu casamento, Antoine foi a Paris receber o Prêmio Femina por Voo noturno. Ele viu Yvonne, mas seu papel se tornara menos importante, substituído pelo de Nelly de Vogüé. Na falta de notícias quando houve o acidente do raid Paris-Saigon em 1936, Yvonne ficou ao lado de Consuelo para apoiá-la, enquanto outros preferiram se agrupar em torno de Nelly de Vogüé. Yvonne será uma amiga fiel de Consuelo, que encontrava nela um refúgio nos momentos difíceis atravessados pelo casal. Antoine, por sua vez, esteve várias vezes s em Chitré, ou em sua mansão na Côte d’Azur. Elea viu uma última vez em dezembro de 1940, antes de partir para os Estados Unidos.

Em 1948, Yvonne de Lestrange participou, com Henry de Ségogne, André Gide, Jean Schlumberger e François d’Agay, entre outros, dacriação da Associação dos Amigos de Saint-Exupéry.

Odette de Sinety (1897-1987)

Odette era a parceira de dança de Antoine, que era particularmente desajeitado nesse exercício. Antoine se apaixonou por Odette e lhe escreveu poemas.

Filha de uma família de aristocratas de Sarthe, Odette de Sinety morava no castelo de Passay, em Sillé-le-Philippe. Seus irmãos frequentaram o colégio de Sainte-Croix no Mans, onde conheceram Antoine, com 12 anos. Ele foi convidado ao castelo, onde as crianças tinham aulas de dança. Em 1920, Odette de Sinety casou-se com Serge Fradin de Belabre, com quem teve dois filhos.

Renée de Saussine, dita Rinette (nascida em 1897)

Bertrand de Saussine apresentou sua irmã Renée a Antoine de Sain-Exupéry, colega do colégio Saint-Louis. Ela se tornou sua confidente e disse a seu respeito:
“Seu corpo de atleta, sua figura de Gilles de Watteau surgiam, desapareciam na sombra”.

O senhor de Saussine achava Antoine magnífico, sua esposa o recriminava por ser tímido e quieto demais. Antoine e Rinette frequentavam juntos os salões, os teatros e as exposições. Eles passavam horas conversando na confeitaria DameBlanche ou no restaurante Lipp, Avenida Saint-Germain. Ela lhe mostrava seus ensaios literários, ele lhe dava conselhos. Ele a fez ler suas primeiras novelas: Manondanseusee O aviador.

De 1923 a 1931, Saint-Exupéry lhe escreveu diversas cartas, especialmente tocantes. Antoine, que sofria de solidão amorosa depois da ruptura do noivado com Louise de Vilmorin, pensava poder encontrar a afeição que buscava junto a Rinette, que fazia de conta não perceber. As declarações veladas se alternavam com as recriminações menos dissimuladas sobre a vida mundana de Renée, que não encontrava tempo para responder-lhe.

Laudações literárias destinadas a seduzir a jovem, aparentemente muito frívola, sucediam confissões sobre decepções de uma vida sombria antes de desembocar em projetos exultantes para o futuro. Essas cartas foram publicadas a partir de 1952 com diferentes títulos: Cartas de juventude, Cartas à amiga inventada, Cartas aRinette.

Numa de suas cartas de 1926, Antoine de Saint-Exupéry explica a razão de todas asoutras:
“Tenho grande necessidade de uma amizade a quem confiar pequenas coisas que me acontecem. Com quem compartilhar. Não sei por que eu a escolhi. Você é tão distante (…). Talvez eu escreva a mim mesmo”.

Louise de Vilmorin, a “Loulou” (1902-1969)

Filha de uma célebre família de comerciantes, Louise de Vilmorin foi o primeiro grande amor de Antoine de Saint-Exupéry e sua noiva. Louise iniciou o Club GB (Grupo Bossuet) – uma sociedade humorística – da qual seu irmão Olivier era um dos membros fundadores. Quanto a Antoine, recebeu o título de Grande poeta sentimental e cômico.

Louise Lévêque de Vilmorin cresceu com seus irmãos e sua irmã entre o castelo de Verrières-le-Buisson e o hotel particular parisiense. Curada de uma tuberculose óssea no quadril, mancava um pouco, mas nem por isso se tornou um partido menos interessante aos homens que lhe faziam a corte assiduamente. Antoine é apresentado aos Vilmorin por Bertrand de Saussine ou talvez Honoré d’Estienne d’Orves, seus colegas no Saint-Louis. Louise os recebia em seu quarto, situado no terceiro andar, onde pintava, tocava violoncelo, escrevia poemas e fumava Craven. Antoine apaixonou-se e conseguiu seduzi-la.

Antoine tinha sentimentos sinceros por Loulou. Eles ficaram noivos e o casamento foi marcado para o fim do ano de 1923. Em agosto, Antoine encontrou Loulou em Reconvilier, no Jura suíço, onde os dois pareciam um par perfeito. Louise escreve à mãe do noivo:
“Quero dizer-lhe que amo Antoine de um amor verdadeiro e que minha vida e todos os meus pensamentos são para ele. (…) Quando nos casarmos, seremos para a senhora os filhos mais carinhosos do mundo”.

Ricos, parisienses e mundanos, tudo parecia opor os Vilmorin aos Saint-Exupéry sem fortuna, provincianos e naturalistas. Antoine é apelidado de Paquiderme Indeciso pelo “Estado Maior dos irmãos”, conforme os denominava Cocteau. Habituada a receber ministros e políticos, a senhora de Vilmorin considera Antoine como um partido pouco brilhante. Ele fracassara no concurso para a Marinha, além disso, ficara hospitalizado por causa de um grave acidente de avião algumas semanas antes de terminar o serviço militar. Não se imaginando como uma futura viúva, Louise lhe pede que renuncie à sua paixão: a aviação.

O noivado foi rompido somente após alguns meses, mergulhando Antoine numa grande tristeza. Essa experiência amorosa frustrante contribuiu para a elaboração de suas primeiras narrativas; Louise lhe inspira o personagem de Geneviève em Correio sul. Ele continuará a escrever-lhe por muitos anos e nunca a esquecerá.

Louise de Vilmorin publicou antologias de poemas e várias de suas obras foram adaptadas para o cinema. Terminou a vida com um amor de juventude, André Malraux.

Consuelo, a esposa (1901-1979)

No final do verão de 1920, quando de uma recepção na Aliança Francesa de Buenos Aires, o escritor Benjamin Crémieux apresentou Consuelo Suncin a Antoine de Saint-Exupéry, então chefe da Aéropostale na Argentina. Foi amor à primeira vista!

Saint-Exupéry teria feito comentários sobre sua pequena estatura, e para ser perdoado te-la-ia convidado a uma volta de avião. Durante o voo, ele lhe teria pedido que o beijasse, o que ela fez, mesmo o achando muito feio.

Consuelo Suncin de Sandoval nasceu em El Salvador, em 1901. Estudou arte e aprendeu francês. Separada de seu primeiro marido, Ricardo Cardenas, ficou viúva do escritor guatemaleco Enrique Gomes Carillo (morto em 1927), amigo de Maurice Maeterlinck, Gabriele d’Annunzio, Oscar Wilde, Picasso, Dali, Verlaine…

Em 22 de abril de 1931, Antoine casou-se com Consuelo, em Nice. O casamento religioso fora celebrado em 12 de abril do mesmo ano, em Agay. O vestido da noiva, de renda preta, destoava e a família de seu marido a acolheu com reservas. Marie de Saint-Exupéry tem a imperssão de que Cosuelo a afasta de seu filho.

As relações entre Consuelo e Antoine são apaixonadas e tumultuosas. O dia em que ele recebe o Prêmio Femina, Antoine festeja o evento com Consuelo, que ele deixa para continuar à noite com Nelly. Atribuem-se a Consuelo comentários venenosos e várias relações, o que contestam alguns de seus amigos, reconhecendo no entanto seu desejo de seduzir qualquer um. Consuelo pensa divorciar-se, mas o advogado que consulta a desaconselha e o casal vive sob tetos diferentes. Ligados um ao outro, ela acorre quando ele precisa dela, ele a protege como a uma criança.

Em junho de 1940, Antoine encontra Consuelo em La Feuilleraie para ajudá-la a fugir da região bombardeada. A convite do arquiteto Bernard Zehfuss, com quem ela tem um caso, ela se instala em Oppède, na região do Luberon, onde vivia um grupo de artistas. Em 1942, ela encontrou Antoine em Nova York; ele a instalou num apartamento no Central Park, alguns andares abaixo do seu. Depois Consuelo descobre uma casa em LongIsland, onde Antoine escreve e desenha O Pequeno Príncipe. Consuelo lhe inspira a rosa de seu conto: orgulhosa, caprichosa, fascinante, maravilhosa, insuportável, insubstituível. Ele lhe escreve uma oração, que ela deveria fazer todas as noites. Mas suas encrencas incessantes tornam o ambiente pesado. Antoine se refugia junto a Sylvia Hamilton e Consuelo junto a Denis de Rougemont.

Em 1943, antes de reintegrar as Forças Francesas Livres na África, Antoine escreve a Consuelo: “Penso que você seria mais feliz sem mim, e que eu encontraria a paz, enfim, na morte…”

Em Alger, ele recebe uma longa carta de Consuelo assegurando-lhe de seu amor absoluto e intacto. Ele lhe agradece: “Seja minha proteção. Faça-me um manto de seu amor”.

Apesar de suas dificuldades conjugais, eles permaneceram muito ligados, e Antoine se sentiu sempre responsável por sua esposa, que confiou à sua mãe depois no caso de sua morte. De volta à França em 1946, Consuelo viveu entre Paris e Grasse, onde morreu em 1979. Ela mantinha um atividade artística e ia às comemorações dedicadas a seu marido. Foi constantemente apoiada por Marie de Saint-Exupéry, que a acolhia em sua casa de Cabris.

Nelly de Vogüé

Antoine de Saint-Exupéry encontrou Hélène (Nelly) de Vogüé em 1929, na casa de Louise de Vilmorin, de quem era amiga. Ele trazia consigo as provas de Correio sul, que lhe confiou e pediu que fizesse suas observações. Ela ficou lisonjeada e impressionada pela atenção que lhe deu o escritor. Nelly cruzava com Saint-Exupéry depois nos salões que frequentava; ele aparecia quando estava em Paris.

De origem alemã, pela mãe, HélèneJaunez era filha de um industrial que possuía importantes usinas de cerâmica no leste da França, das quais ela viria a cuidar, tornando-se, assim, uma das primeiras mulheres empresárias do país. Em 1927, casou-se com Jean de Vogüé, grande nome da aristocracia francesa.

Uma ligação surge entre Nelly e Antoine. Nelly oferecia uma estabilidade a Antoine, que levava uma vida desregrada e aventurosa. Se Antoine tinha uma atitude protetora com Consuelo, buscava acalento e conforto com Nelly. Ela se serviu de suas relações com a mídia e a política para recomendá-lo; às vezes cobria suas dívidas; conta-se que teria comprado um avião Simoun para ele. Suas conexões com as altas esferas da indústria se revelavam eficazes para tirá-lo de situações delicadas.

Ela o reencontrou em Nova York em 1938, onde ele se restabelecia depois de seu acidente na Guatemala e o levava todos os dias a um osteopata. Comemoraram juntos sua medalha da Legião de Honra e os 37 anos de Guillaumet, em 1939. Nelly visitou Antoine várias vezes em Orconte, onde estava o grupo 2/33 ao qual ele pertencia.

O irmão de Nelly tentou convencer Saint-Exupéry a juntar-se a de Gaulle em Londres, o que ele recusou, incomodado pelos ataques do general contra Pétain. Enfureceu-se quando Nelly deixou escapar uma palavra elogiosa com relação ao general e a recriminou por seus comentários cáusticos sobre Consuelo. Nelly, por sua vez, ficava com raiva dele por causa de suas outras relações amorosas.

Nelly de Vogüé juntou-se a Antoine de Saint-Exupéry em Alger, em 1943. Ela chegou de Gibraltar num avião americano, vigiada pelos serviços de informação dos aliados que julgavam suspeita a sua liberdade de movimentos. Depois que ela partiu, Saint-Exupéry lhe enviou várias cartas dizendo-lhe que se arrependia de suas brigas, que precisava dela e que a amava. Ele escreveu uma última carta em 30 de julho de 1944, um dia antes de desaparecer.

Sob o pseudônimo de Pierre Chevrier, Nelly de Vogüé publicou em 1949 uma obra consagrada a Antoine de Saint-Exupéry. Também cuidou da edição póstuma de seus manuscritos: Cidadela, Escritos de guerra, Anotações. Depositou muitos documentos sobre ele na Biblioteca Nacional de França, que só poderão ser abertos 50 anos depois de sua morte, ocorrida em 2003.

Natalie Paley (1905-1981)

Beleza triste, excêntrica e mundana, Natalie Paley é uma princesa Romanoff. Saint-Exupéry ficou encantado com essa mulher de misteriosa graça e estranho destino.

Natalie Pavolovna era filha do grão-duque Paul Alexandrovitch, membro da família imperial russa, e de Olga Karnovitch. Diante da recusa do czar Nicolau II em autorizar o casamento morganático de seus pais, eles fogem da Rússia para instalarem-se na França, onde nasce Natalie. Chamados de volta à Rússia em 1912, Natalie irá com seus pais e o czar lhes dá o título de príncipe e princesa Paley. Quando a revolução de 1917 eclode, ela é brutalizada e certamente violentada antes de escapar. Seu irmão e seu pai são presos e assassinados.

Exilada na França, Natalie Paley se casa, em 1927, com o costureiro LucienLelong, do qual se torna o ícone. Segundo suas confidências, o casamento não foi consumado. Com efeito, ela nunca superou os traumas de sua passagem pela Rússia e evitou durante toda a vida relações sexuais com um homem. De fascinante personalidade, atraiu aristocratas e artistas dos anos loucos.

Jean Cocteau, que a iniciou no ópio, vangloriava-se de uma relação amorosa com a princesa e espalhou o boato de que ela estaria grávida dele. Ele a escolhe para interpretar em Le Sang d’unpoète (1920) e foi assim que começou sua breve carreira de atriz. Em 1933, foi parceira de Pierre Richard-Wilm em L´Épervier. Em 1936, Richard-Wilm interpreta Jacques Bernis, o personagem principal na adaptação de Correio sul conforme roteiro de Saint-Exupéry. Durante as filmagens, ele teria apresentado Natalie Paley a Antoine de Saint-Exupéry.

Em 1937, ela se estabeleceu nos Estados Unidos, onde se casou pela segunda vez, com o produtor de teatro John Chapman Wilson, homossexual declarado. Foi em Nova York, em 1941, que Saint-Exupéry a encontrou e se apaixonou por ela. Bloqueado no Canadá em 1942, ele lhe endereçou cartas pungentes nas quais se misturam lirismo amoroso, lembranças de infância e a necessidade de expandir-se e ser consolado. Segundo Louise de Vilmorin, Cocteau e Saint-Exupéry tinham em comum ter amado as mesmas mulheres, duas mulheres do mundo que foram para cada um deles uma musa.

Annabella (1907-1996)

Anabella encarna o personagem de Anne-Marie, o filme realizado em 1935 por Raymond Bernard com roteiro de Antoine de Saint-Exupéry.
Suzanne GeorgetteCharpentier tinha apenas 16 anos quando foi escolhida por Abel Gance para seu filme Napoleão. E foi durante a filmagem que tomou o nome artístico de Annabella. Rapidamente obteve grande notoriedade e o cinema falado fez dela uma estrela. Em 1934, casou-se com Jean Murat, que interpretava o pensador em Anne-Marie. No final dos anos 1930, ela aventurou-se em Hollywood e enonctrouTyrone Power, com quem se casou em 1939.

Em agosto de 1941, Antoine de Saint-Exupéry foi convidado por Jean Renoir a Hollywood. Durante sua estada em Los Angeles, foi operado da vesícula biliar. Nessa época, Annabella foi deixada pelo marido, que vivia uma aventura com Judy Garland. Ela visitou Saint-Exupéry hospitalizado e, para distraí-lo, leu-lhe o conto de Andersen, A pequena sereia. Durante esses momentos passados juntos, ele lhe teria falado do personagem cuja história queria contar e que seria a criança que cada um guarda escondida em si quando se torna adulto.

Um ano mais tarde, em Nova York, Saint-Exupéry redigiu O Pequeno Príncipe. Ele telefonou a Los Angeles para ler passagens de sua história a Annabella, lembrando-se do tempo em que era ela quem lia à sua cabeceira. Quando Annabella foi a Nova York para algumas audições, Saint-Exupéy a levou ao Central Park para ver esquilos e se indignou quando ela quis deixá-lo para ir a um encontro, abandonando os animaizinhos que ambos estavam alimentando!

Annabella dirá a seu respeito: “Quando estávamos juntos, tínhamos doze anos”.

NadiaBoulanger (1887-1979)

Formidável maestrina e professora, NadiaBoulanger foi apresentada a Antoine de Saint-Exupéry em 1938 por Nelly de Vogüé.
Em Paris, Saint-Exupéry às vezes a visitava em sua casa, na Rua Ballu, n. 36, no 9º distrito, que ela dividia com sua irmã Lili (que se tornou n. 3, praça Lili Boulanger).

Durante a Segunda Guerra, ela partiu para os Estados Unidos e lá reeencontrou Antoine de Saint-Exupéry. Dirigiu a Filarmônica de Nova York, a Boston Symphony Orchestra e a Orquestra da Filadélfia. Pedagoga sem igual, dava aulas aos eminentes compositores americanos, fascinados por sua cultura e pela riqueza de seu ensino. Saint-Exupéry lhe dedicou muito calorosamente um exemplar datilografado de Piloto de guerra (hoje na Biblioteca Nacional de França):
“(…) Você sabe da imensa estima e profunda afeição que lhe tenho. Estou muito feliz em lhe dar um dos quatro manuscritos (…)”.
De volta à França, depois da guerra, NadiaBoulanger foi professora no Conservatório americano de Fontainebleau até sua morte, em 1979.

Sylvia Hamilton Reinhardt

Antoine de Saint-Exupéry encontrou Sylvia Hamilton, uma jovem jornalista de Nova York, no início do ano de 1942, graças a seu tradutor Lewis Galantière, de quem ela era amiga. Antoine não falava inglês, ela não falava francês.

Eles logo se ligaram por uma amizade amorosa, breve e intensa, frugal e reconfortante. Antoine passava as tardes no apartamento requintado de Sylvia, que lhe preparava ovos no prato. Ele trabalhava no Pequeno Príncipe e, para ilustrá-lo, fazia desenhos tomando como modelos seu cachorro e seus bichos de pelúcia, ou a própria Sylvia. Segundo esta, a célebre frase da Raposa “só se vê bem com o coração” lhe foi endereçada.
Se não jantavam em casa, saíam para os lugares chiques de Nova York, no Club 21, por exemplo, Antoine deixando-se convidar pela jovem rica. Depois, eles se separavam e Antoine voltava para trabalhar em seus livros. Sylvia era uma das raras pessoas a não se beneficiarem das leituras do autor, visto que seus conhecimentos de francês eram sumários.

Quando ele a viu pela última vez, antes de deixar a América em abril de 1943, legou-lhe o que tinha de mais precioso no mundo: sua máquina fotográfica, uma ZeissIkon, e o manuscrito do Pequeno Príncipe (adquirido depois pela Morgan Libray de Nova York). Da África do norte, ele lhe escreveu várias cartas. A última, pouco antes de seu desaparecimento, ilustrada com dois desenhos representando o Pequeno Príncipe e o carneiro.

Sylvia Hamilton casou-se com o diretor e produtor Gottfried Reinhard e se estabeleceu na Áustria, onde dividia seu tempo entre pintura e literatura.