Aéropostale no Brasil Santos

» Patrimônio Imaterial – Testemunhos

Documentos

Raríssimos são os testemunhos vivos da época da Aéropostale. Santos é das cidades que podem contar com um deles: o senhor Carlos Cirilo, nascido em 1924, cuja avó, de origem basca, tinha casa e terreno na Praia Grande, então Santos. Ali, conta o Senhor Cirilo ter passado as suas férias de infância. Completamente lúcido e organizado, ele orgulhosamente mostra seu álbum de fotos com imagens de Jean Mermoz e do local à época. Relata ainda que aos cinco anos, teria realizado, numa cadeira de vime atada ao banco do avião, um voo com sua mãe num avião da Aéropostale pilotado por Saint-Exupéry. A experiência, muito marcante, e as férias gozadas junto a aviões que subiam e desciam na antiga escala de Santos, levaram-no à carreira de piloto civil.  Sua avó, que falava naturalmente francês, bem como sua mãe, costumavam tomar café com os pilotos na casa que conservaram junto ao campo. Essas relações de amizade são as mesmas de que se tem notícia noutras escalas do Brasil.

Amostra de café - Transporte Aéropostale

Amostra de café – Transporte Aéropostale

Há fotografias da antiga escala de Santos, bem como de aviões em pane nas praias, certamente na de José Menino, onde ocorreram os primeiros pousos. Além disso, encontram-se antigas reportagens do jornal A Tribuna, noticiando a passagem de um ou outro piloto, revelando um pouco da situação da escala. Subsistem também alguns envelopes da antiga Aéropostale, nos quais eram transportadas as amostras de café e cartas, faturas etc. em função da Bolsa de Café, cujo movimento era intenso em Santos. O conjunto valida a expressão da escala de Santos que era, no entanto, escala de apoio, mas tão equipada quanto todas as demais. Sua preservação é necessária em respeito à memória da história da aviação do Brasil, pois por ali passaram os ases da aviação francesa, decerto, mas também Edu Chaves. E, na baixada santista, nasceu o precursor da aviação, Bartolomeu Gusmão.

A Tribuna

A Tribuna

Livro de J. Muniz Jr. traz as histórias da aviação em Santos

Livro de J. Muniz Jr. traz as histórias da aviação em Santos

Depoimento

“Sou da minha infância como de um lugar”

(Antoine de Saint-Exupéry, Piloto de Guerra – 1942)

Carlos Cirilo em 2012

Carlos Cirilo em 2012

Nascido aos 12 de dezembro de 1923, o piloto civil e militar Carlos Cirilo fez parte da história da aviação brasileira. Lutou na Segunda Guerra Mundial, na Itália, foi piloto de táxi aéreo, conheceu políticos e teve o mérito de presidir uma Associação pela recuperação do Centro Técnico Aeroespacial do Brasil (CTA) em São José dos Campos (SP), onde trabalhou, junto aos militares, no projeto de criação do Museu Aeroespacial Brasileiro. Essa carreira de grande fôlego e motivo de orgulho nos foi narrada pelo próprio Carlos Cirilo, em sua atual residência de Mairiporã (SP), onde nos recebeu com notável energia e grande amabilidade na tarde do dia 02/03/2012. Sua vocação de piloto e apaixonado pela aviação remontam à sua infância, na Praia Grande, cidade litorânea do Estado de São Paulo, onde passava as férias na casa dos avós. Ali, num terreno vendido por seu avô à Companhia de Correio Aéreo Francesa, a Aéropostale, instalara-se uma escala para os voos franceses. O pequeno Carlos Cirilo flertou desde cedo com os aviões, pilotos, mecânicos e teve seu “batismo do ar”. Por volta dos seis ou sete anos, o menino, junto de sua mãe, conforme narra, realizou um voo com um piloto da companhia, Antoine de Saint-Exupéry. Fotografias de seu acervo pessoal endossam os fatos que a memória de Carlos Cirilo, de pura lucidez, descortina com precisão de datas, nomes e detalhes. Em destaque, as lembranças da Aéropostale:

Tenho uma carreira de piloto militar e civil. Uma  história que começou quando eu era muito pequeno. Meu avô tinha uma casa na Praia Grande (SP), onde íamos passar as férias. Um dia, ele disse que tinha vendido uma parte do sítio para uma companhia francesa, que ia fazer um campo de aviação ali. E quando nós fomos passar as férias, eles realmente tinham feito um campo de aviação. Isso era: areia – pois era tudo areão – e eles usavam como pista, conforme o vento, a praia, ou o esse campo de aviação.

Praia Grande - Foto do arquivo de Carlos Cirilo

Praia Grande – Foto do arquivo de Carlos Cirilo

Então comecei a ver os primeiros aviões da minha vida. Minha brincadeira de criança era em torno daqueles aviões, quando eu estava lá. Isso despertou minha vocação para voar.

A Praia Grande era uma base de manutenção dos aviões. Depois que construíram o hangar, faziam as trocas de motores e veio da Suíça o encarregado de mecânico, um Jean Bernard. Como minha avó era francesa, fizemos amizade. Num desses voos de teste, veio um piloto e depois soube que se chamava Saint-Exupéry. Ele convidou a minha mãe para fazer um voo e quem arranjou foi o Bernard;  ela entrou no avião me carregando no colo.  A cadeira era de vime, amarrada no avião. Há coisas da infância que ficam marcadas…

Documento do Museu Air France: Escala da Praia Grande.

Documento Air France: antiga escala da Praia Grande.

Como minha avó era francesa sempre falava com eles. Aliás, minha avó nunca falou que era francesa…. Ela dizia, ‘eu sou basca’. Minha mãe também falava francês.

Saint-Exupéry veio mais de uma vez e também o Guillaumet e acabavam tomando cafezinho naquela nossa casa, enquanto abasteciam os aviões. O cheiro daquele óleo ficou no meu nariz até hoje…Não havia rádio. No começo, tinha o radiotelegrafista… Era no chão a comunicação. Na sala de rádio da Praia Grande, tinha essas estações de radiotelegrafistas. Eles emitiam sinal sobre o ângulo do avião, tomavam sua posição. Mas quando chegava a posição, era sobre onde já tinha passado, o que permitia só uma perspectiva. Então começaram os primeiros voos noturnos. Mas eles não tinham como balizar: pegavam um monte de latas de querosene e balizavam o campo. Quando escutavam o ronco do avião, saíam correndo com uma tocha da mão, acendendo as tochas de querosene… Depois surgiram os geradores com refletores…

Raramente os pilotos dormiam lá. Quando o faziam, dormiam numa pensão na Vila Guilhermina. A Praia Grande era deserta. Os pilotos pouco ficavam ali.  Toda a nossa vida gira em torno da memória da infância. E na minha está a Aéropostale. Saint-Exupéry foi quem gravei porque foi o primeiro voo…”

O acendedor de lampiões – desenho de Saint-Exupéry para o Pequeno Príncipe.