Aéropostale no Brasil Florianópolis

» Patrimônio Imaterial – Testemunhos

Muitos são os depoimentos sobre a presença da Aéropostale no Campeche, em Florianópolis. O mais significativo teria sido deixado pelo pescador conhecido por Sr. Deca (Rafael Manuel Inácio). Um de seus filhos, sr. Getúlio Inácio, compilou num pequeno livro as memórias do pai sobre a presença de Antoine de Saint-Exupéry. Através de pesquisas em Florianópolis, percebeu-se que os depoimentos transcendem o depoimento do pescador e que a história da companhia aérea foi plenamente assimilada na cultura local, seja pela toponímia do Campeche ou pelos próprios resíduos linguísticos, como é o caso da pronúncia do nome de Saint-Exupéry como “Zeperri”. Este é praticamente um personagem histórico local… Nota-se ainda a palavra “popote” que designa o imóvel, a casa dos pilotos e não exatamente o “rancho” como em francês.

Documentos

Raríssimos são os documentos sobre a escala do Campeche. Um deles, é o atestado de internação do piloto Henri Delaunay, que sofreu graves queimaduras em decorrência de um acidente de avião em Florianópolis, no Hospital de Caridade. Ali o piloto permaneceu quatro meses.

Há planos de voos – vários – que citam a cidade de Florianópolis, sem mencionar quem pilotava naquele momento. A folha de pagamento de um dos mecânicos residentes no Campeche também existe ainda, no Museu Air France. Esses documentos são mostrados no documentário “De Saint-Exupéry a Zeperri”.

Documentário

O documentário realizado em 2011 pela equipe da AMAB, “De Saint-Exupéry a Zeperri” traz à tona vários depoimentos sobre a escala do Campeche e está disponível on-line.

Sinopse

Perfazendo a história da antiga companhia de correio aéreo francesa Aéropostale implantada no Brasil a partir de 1924, o documentário traz à tona a biografia de um dos seus mais renomados pilotos: Antoine de Saint-Exupéry. Também autor de um dos maiores best-sellers universais, O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry, tido como o “poeta da aviação” graças às suas demais obras, trabalhou entre 1929 a 1931 na sede argentina da empresa. Nesse período, teria sobrevoado várias vezes a costa do Brasil, na qual a Aéropostale possuía 11 escalas. Próxima a Buenos Aires ficava a escala de Florianópolis, em Santa Catarina, no bairro do Campeche. Em suas paradas pela região, o piloto-escritor teria conhecido pescadores e entrelaçado com eles uma singela amizade. Seu nome de difícil pronúncia incitou, entre os moradores, o apelido “Zeperri”, cristalizado na cultura e no folclore de Florianópolis. “De Saint-Exupéry a Zeperri”, cruzando testemunhos de franceses e brasileiros, alia relatos orais à pesquisa histórica para reconstituir um capítulo praticamente desconhecido de um escritor cuja vida e obra remontam ao mito.

Criação e argumento de Mônica Cristina Corrêa, com direção de Branca Regina Rosa e roteiro de Delmar Gularte. Em associação e parceria com a Succession Saint-Exupéry (Paris-Agay, França).

50 minutos, 2011.

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Depoimentos

Da parte francesa, testemunhos que coadunam os relatos de ilhéus são evidentes. Certamente, o mais peculiar é o de Paul Vachet. Mas a escala é citada e mencionada por membros da Companhia e por escritores que trataram o tema. Ressaltem-se o de Joseph Kessel, em sua biografia de Jean Mermoz, que salienta um episódio da descida deste piloto no Campeche; outro de Léon Paul Fargue, em carta que homenageia Saint-Exupéry. E, sobretudo, o poeta da aviação, Saint-Ex, que menciona a escala de Florianópolis em seu livro “Voo noturno”, escrito no período em que esteve na América do Sul. Henri Delaunay, piloto que se acidentou em Florianópolis, também deixou depoimento em que relata o fato.

Avant les jets

Avant les jets

Paul Vachet, “Avant les Jets” (páginas 148-155).

Em Florianópolis, descobri um terreno adequado, depois de longas buscas muito difíceis por causa do estado inverossímil das ‘estradas’ da Ilha de Santa Catarina. Mas era preciso comprar esse terreno, coisa para a qual eu não tinha autorização formal nem os fundos necessários”

“Em seguida, foi a compra do terreno de Florianópolis. Eu havia recebido de M. Bouilloux-Lafont a ordem de comprá-lo e os fundos necessários foram postos à minha disposição. Mas eles se revelaram superabundantes, pois o preço global foi ridiculamente baixo. Eu digo global porque de fato o conjunto da superfície que me convinha estava dividido numa vintena de parcelas pertencentes a humildes  pescadores das redondezas. Mas frequentemente seus títulos de propriedade não estavam regularizados, assim como o estado civil dos pescadores. Alguns deles não eram legalmente casados com suas companheiras, as quais lhes haviam, no entanto, dado muitos filhos. Às vezes, esta possuía uma pequena parcela de terreno, situada ao lado daquela do companheiro. Enfim, para simplificar os títulos de propriedade, foi necessário começar por regulamentar um bom número dessas falsas alianças.

Mandei vir de Florianópolis um juiz e uma tarde foi dedicada àqueles casamentos. Naturalmente, minha mulher e eu fomos solicitados como testemunhas pela maioria dos ‘noivos’ e, neste caso, tais testemunhas se tornaram ‘compadres’ e ‘comadres’ dos casais. Assim, durante anos, cada vez que nós aterrissávamos no terreno de Florianópolis, éramos cercados de muitos pescadores que nos tratavam por ‘compadre’ e ‘comadre’ com grandes reforços de vigoros os tapinhas nas costas e do ‘abraço’.”

Avec Léon-Paul Fargue

Avec Léon-Paul Fargue

Léon-Paul Fargue – Homenagem Póstuma : Lembrança de Saint-Exupéry (1945)

Quantas noites foi preciso esperar o esgotamento para nos speraramos enfim, à frente do aeroporto do restaurante Coupole ou no hall do hotel Lutécia! Quantas noites também eu passei esperando por ele, nervoso e tenso, não porque ele estivesse sempre atrasdo, mas porque eu sabai que estava em Florianópolis ou na Cirenaica e o rádio não dava notícias sobre seu motor”.

Joseph Kessel

Joseph Kessel

Joseph Kessel, in “Mermoz” (1938)

No correio seguinte, esse rompante quase lhe fez cometer o que mais odiava: uma injustiça. Ele havia acabado de aterrissar em Florianópolis, taxiou até a pista. O mecânico do terreno que deveria esperá-lo não estava ali. Chegou três minutos depois. O rosto de Mermoz empalideceu sob uma de suas piores cóleras. Ele sacudiu o mecânico esfarrapado, gritando:

– Demitido, cafajeste! Que eu não te veja mais aqui ou te quebro! E o que você está esperando para encher o tanque? Quer que te mostre agora?

Incapaz de suportar a cara daquele que lhe fizera perder três minutos de correio, temendo os efeitos de seu próprio furor, Mermoz se enfiou na cantina do terreno e, de uma só vez, tomou três garrafas de cerveja. O chefe do aeródromo foi encontrá-lo ali. Era um velho camarada.

– Sabe – disse-lhe – não foi completamente culpa dele.

– Não, não – gritou Mermoz, não quero saber nada.

– Escuta, Jean… A mulher dele vai parir, ela desmaiou, chamaram. Ninguém te esperava tão rápido. Você deve ter cortado pelo interior.

– É verdade… É verdade, eu cortei pela floresta, murmurou Mermoz.

Quando ele voltou ao avião, o mecânico se afastou receosamente.

– Você encheu bem o tanque, disse Mermoz, sem olhá-lo, desta vez passa.

Estava amassando na palma da mão uma nota de cem mil reis.

Na hora de decolar, enfiou a nota no macacão sujo do mecânico.”